SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 03:41

As redes da janela Virtual

Na época em que o teólogo Leonardo Boff escrevia a Teologia da Libertação, a janela de um comboio era o horizonte de quem passava pelas paisagens do mundo. Nos nossos dias, não somos nós que passamos pelas paisagens, são as paisagens que passam por nós, num simples deslizar de dedos pela tela de um aparelho eletrónico. Da janela eletrónica, as redes trazem cores, dígitos, natureza, notícias. Tudo virtual. Das janelas cibernéticas contemplamos a tecnocracia das redes. Dentro das redes se deslinda o drama humano. Pois há gente de todas as gentes pela janela das redes de comunicação. Gente que conversa, gente que ouve música. Gente séria, gente nua. Gente que trabalha. Gente que joga. Gente que brinca, ri e chora. Há gente de política, gente de futebol, gente distraída e gente concentrada no jornal. Há gente inquieta. Gente preocupa- da. Gente culpada, gente sem luz, que procura fugir de suas tre- vas nas redes de entretenimento. Gente que atravessa madrugadas e gente que por razões existenciais se exclui das redes sociais. Há gente que renega as redes de informação, não quer navegar. Há gente céptica e gen- te que não questiona. Há gente calma e serena que navega pelas nuvens do ciberespaço a oferecer canções, flores, mensa- gens de amor. Mas há quem abusa das mensagens. E quem provoca discussões, rechaçando diferenças e apagando relações. Ilusoriamente há gente de opinião. E gente que finge desligar para observar situações. Gente carente. Gente que muda de endereço, gente que invade privacidades, gente que vive a noite e não a lua, o dia e não o sol. As redes impõem seu preço e risco, com velocidade modificam o nosso modo de ser e viver. Elas foram feitas no mesmo dia que a vida nasceu e descobertas na noite que a vida morreu. Em torno da tecnologia, as redes dominaram o nosso mundo transformando o real em virtual. Hoje, o código do saber tornou-se tecnológico, que quer dizer (conhecimento repetitivo). O código tecnológico destrói o conhecimento original. As redes se predispõem, no conjunto, a pôr em prática a destruição do pensamento pela instituição da ilusão. Na era das comunicações, o que era meio (mídia) tornou-se vida (fim). E da janela virtual deu-se o sono da razão.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados