SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Setembro 2020, 15:45

De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

Reprodução

Por: Drª Telma Gomes

A propósito do recentemente comemorado “Dia dos Namorados”, lembrei-me de uma frase que há pouco tempo encontrei no Facebook, essa incrível maravilha de encontros e desencontros. Dizia qualquer coisa do género: “procuro namorado para a minha cadela”. Quem me conhece, consegue imaginar o meu revirar de olhos de descrédito e impaciência. Procurando nos grupos desta rede social, não é difícil encontrar réplicas destas palavras, por vezes com variações tipo: “O Joca quer uma amiguinha para namorar” que se sucedem em algo assim: “que namoro bonito”. Sim, continuamos a falar de cães.

A si, que gosta muito dos seus cães de raça, e que gostaria de ter filhos deles, digo isto: é você quem quer cruzar o seu/ /sua cão/cadela, não o seu animal que procura namorado. Em primeiro lugar, paremos com as antropomorfizações que, na minha opinião, são a principal arma contra o respeito pelos animais. Se um cão é um cão, então que o seja, e por aí diante. Não há cá lugar para namoros, nem meios namoros. Há lugar para hormonas. Isso remete-nos para a segunda questão: o seu animal não tem propriamente o desejo de experimentar a maternidade/paternidade, e ver os filhos evoluir na vida. Ao fim de quatro meses, se tanto, já nem se lembram que têm filhos, quanto mais desejar vê-los entrar na universidade e graduarem-se. Os seus animais têm hormonas. E quando as hormonas determinam a época de cio, querem reproduzir-se. Simples, só isto. Chegamos à terceira questão: quando se reproduzem, o que acontece? Ninhadas! Meia dúzia de cães/gatos para dar/ /vender! Há quem esfregue as mãos de contente a pensar na negociata, há quem abane a cabeça de desespero. O que fazer a tanto animal? Lembre-se: os cães e gatos são espécies domesticadas, não são silvestres/selvagens. Se o fossem, a natureza encarregar-se-ia de fazer cumprir o seu ciclo normal e manter a sustentabilidade e o equilíbrio. Inexoravelmente, nem todos sobreviveriam. Muito duro ler isto? Talvez, mas é a realidade. O que se passa, com estes animais domesticados, é que todos nós, como espécie humana que somos, somos responsáveis por eles. Se estes animais não são espécies selvagens, então porquê ouvirmos comentários como: “não é natural evitar a reprodução”. Ela deve ser evitada! Só assim controlamos a população, que no meio selvagem seria controlada pela natureza, de forma nua e crua. Entretanto, a quarta questão: por acaso, o caro leitor, que pensa comprar um cão a um criador ali da esquina, que juntou um par de namorados (caninos), e que até sai mais barato, lembrou-se de saber se os despistes para as principais doenças da raça estão feitos? Lembrou-se de ver se o criador é certificado pelo clube português de canicultura? Acredito que se a reprodução de cães de raça fosse apenas feita por criadores certificados, teríamos muito menos compras irresponsáveis, muito menos reproduções indesejadas. A si, que quer comprar um cão ao seu vizinho, que por acaso, até parece perceber de cães, e a si, que quer um namorado para a sua cadela, convido-o a visitar – com olhos de ver e um pingo de sensibilidade – um albergue para animais de rua: veja as dezenas, alguns locais com centenas, de animais que procuram uma família, cujo único crime foi terem nascido de quem não foi cuidado.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2020 © Todos os direitos reservados