SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 20:32

De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

ADOÇÃO

Por: Telma Gomes

Certo dia, ouço uma conversa entre um médico veterinário de um abrigo de animais e um possível adotante: “olhe lá, tem aí alguma coisa de especial, de cães?”, “Coisa especial? Depende do que entender por especial. Temos aqui muitos cães, cada um tem algo de especial”, “Oh, você sabe o que quero dizer…”. E a conversa ficou por ali. Pergunto: que quereria aquele senhor dizer? Não quero entrar em falsos moralismos: existem cães que foram criados e aperfeiçoados sob um ponto de vista utilitário: cães de caça, de pastoreio, de guarda… Até os cães de companhia foram criados com um intuito: fazer companhia. Talvez, nesse contexto, possamos dizer, de acordo com a nossa preferência pessoal, que um ou outro animal é especial. Quanto a mim, digo, correndo o risco de soar a frase feita: são todos especiais. É impossível não pensar nisto, quando olho nos olhos das dezenas de cães que se encontram em abrigos. São dezenas de cães dóceis, todos diferentes entre si, mas com algo em comum: todos têm uma dose infinita de gratidão, lealdade e de amor para dar. E todos têm potenciais que não foram descobertos. Já vos falei no Pluto, o meu cão adotado no – já inexistente – canil do Entroncamento. Foi só nos seus onze anos de idade que descobri, e lhe permiti dar a conhecer, o seu verdadeiro potencial de cão de companhia, quando o levei comigo para a Universidade, em Évora.

Agora, enquanto ele dorme o seu sono descansado e eu escrevo este texto, ouvindo a sua respiração profunda de cão com quase 16 anos de idade, penso no tempo que desperdicei com ele, nos 11 anos da sua vida em que estive próxima dele, o acarinhei e cuidei, mas sem conhecer plenamente o seu potencial. Acordou, agora. Levanta-se com dificuldade da sua cama e vem sentar-se ao meu lado enquanto escrevo. Olha para mim com o olhar que conheço melhor que qualquer outro, e só consigo pensar que tenho graças a dar por toda a felicidade que ele e os meus outros animais, e todos os outros com que me cruzo, me dão. Todos têm o seu quê de especial, basta que os deixemos ser, e expressar-se.

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