SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 23:43

De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

Há umas semanas, li um artigo sobre uma variante da síndrome de Diógenes: a síndrome de Noé. Diógenes, um filósofo do século IV a. C., ficou conhecido por levar ao extremo os seus ideais de pobreza e de renúncia aos bens materiais, vivendo totalmente isolado de um mundo exterior. Embora a designação desta síndrome para descrever uma perturbação comportamental relacionada com a autonegligência, o isolamento e a recusa em obter auxílio externo, associados à acumulação de objetos, não seja consensual, o facto é que, cada vez mais, seja por uma sociedade mais apressada e mais egocêntrica, seja por uma sociedade mais consciente para estas desordens comportamentais, têm vindo a ser relatados casos de “acumuladores”. Hoje, trago especificamente a perturbação psicológica da “acumulação” de animais. É difícil, por vezes, e numa abordagem imediata, perceber se estamos perante uma perturbação mental relacionada com a acumulação de animais, se estamos perante um caso de negligência, ou se, pelo contrário, nos deparamos com alguém que gosta de animais e procura recolhê-los, com ponderação, de forma a providenciar-lhes qualidade de vida. Talvez resida aqui a diferença:
“ponderação”. De que vale ficar com todos os animais se não poderei tratá-los adequadamente, controlando a sua reprodução? É difícil, para quem apresenta este tipo de alteração comportamental, fazer uma análise racional. Parece uma questão óbvia, mas existem animais subnutridos, a morrer de inanição, animais doentes em condições pútridas, confinados em pequenos apartamentos, onde pragas de ratos e parasitas fazem um festim. São condições deploráveis, que colocam em risco qualquer forma de saúde: seja a dos animais, seja a dos seus detentores humanos (e vizinhos): doenças dermatológicas, gastrointestinais, parasitárias, infecciosas…
A análise deste problema requer apoio especializado e multidisciplinar. Na verdade, nem todos os que recolhem animais de forma negligente estarão doentes. No entanto, estejamos atentos a quem nos rodeia, tentemos reconhecer padrões de comportamento, e procuremos acompanhar. O isolamento e a dificuldade na interação social, o desprezo pelos cuidados pessoais e a tendência para “acumular” são sinais de alerta. E deixo uma sugestão: se gosta de animais, e sabe que não pode adotar, porque não colaborar com uma associação, ou com o canil da sua zona de residência? Talvez voluntariado, talvez donativos: o que importa é não ficar indiferente.

 

Telma Gomes

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