SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 08:50

A inauguração da luz eléctrica

Já lá vão mais de quarenta anos e recordei-me de vos vir contar desta vez uma história da minha banda Academia Pop numa sua deslocação a uma localidade do concelho de Ferreira do Zêzere, mais concretamente a Ladeiras da Calçada.

A aldeia esteve em festa rija durante todo o dia, porque era dia em que finalmente chegava a luz eléctrica, um progresso notável e chegava também ao caír da tarde o Conjunto Academia Pop de Torres Novas, que ia abrilhantar o baile.

Fizemo-nos deslocar no táxi do Carlos Sirgado (Néné) e num Mini, pertença do amigo e já falecido Dinis, filho mais velho do guarda da Casa Nery.

A alegria era enorme na aldeia e ao verem tanta luz montada no arraial e tantas luzinhas que piscavam na aparelhagem do conjunto era difícil esconderem algum ar de espanto.

Muito bem recebidos, antes do baile serviram-nos um belo jantar, tendo eu ficado ao lado do referido Carlos Néné que também estava espantado com a recepção calorosa e com os acepipes que nos serviam.

Houve foguetes à farta em sinal de alegria e de chamariz para o baile que ia começar. Começa o baile, o Fanha ao órgão, o Mário Abreu na viola sólo, o Correia na viola baixo, o José Vicente na bateria e este escriba na voz, fazíamos o que podíamos para que a música dos anos sessenta ali saísse na perfeição.

A malta da aldeia começou a dançar e nunca mais parou, enchendo por completo a sala e aplaudindo o conjunto em cada canção. O palco era pequeno e os quatro músicos e a aparelhagem não permitiam que eu cantásse lá de cima mas tudo se resolveu. Cantei cá em baixo, no meio dos pares dançantes e confesso que nunca levei tanto encontrão e tanto aperto e encosto como nessa noite. O vocalista estava mesmo ali à mão de semear e um empurrãozinho dentro do ritmo devia dar-lhes um gozo suplementar. Mas tudo se aguentava com aquela idade dos vinte anos.

Estávamos no tempo em que os acompanhantes vocais usavam um micro preso a uma “coleira” metálica, aquilo estava mesmo na moda só que por vezes lá saiam umas larachas menos contidas apenas por esquecimento de terem as vozes amplificadas. O calor na sala era grande e pediu-se água para o palco. O pedido foi atendido de imediato e o copo era um “borrifador de roupa” e pelos orifícios da tampa lá se ia matando a sede. Só que os da organização não nos deram água mas sim uma forte aguardente.

Aquilo não matava a sede, mas começou a dar volta à cabeça e à bexiga de pelo menos dois dos artistas. Não foi pois com muito espanto que de repente oiço o saudoso Mário Abreu a gritar ao microfone: “ É malta vamos mi…fazer xi-xi ?”, ao que o Fanha com a sua voz muito aguda respondia. “É já…É já !”

E lá se fez um intervalo, os dançantes perdoaram tudo e a festa continuou pela noite fora até o sol dar pelos joelhos…

Mas essa de aguardente por água é que não lembrava ao diabo. Deve ter sido do “barulho” das luzes. Sempre era a primeira vez.

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