SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 18:59

O Direito à Indignação ou à Resignação pertence ao Povo

 

A pressão da França e da Alemanha para que Portugal recorra à ajuda financeira da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional, com a subida dos juros da dívida pública a ultrapassarem, uma vez mais, os 7%, tiveram grande repercussão na imprensa europeia, nomeadamente no Financial Times, no Le Monde e no semanário alemão Der Spiegel , que na sua  edição de domingo último, noticiava a pressão daqueles países sobre o governo de Portugal, descrentes de que as soluções aprovadas possam resolver o problema do financiamento necessário à ultrapassagem da crise. Pressões que, de forma curiosa, se acentuam sempre em momentos de importantes decisões a nível nacional: a discussão e aprovação do orçamento e, no momento, as eleições para a presidência da República, como demonstrando, em última instância que a independência nacional – como a da Grécia, da Irlanda, mesmo da Espanha -está dependente dos interesses económico-políticos do conservadorismo neo-liberal da senhora Merkel e do presidente Sarkozy. Quando a revista Der Spiegel se interroga, segundo informação de o Público de 9 de Janeiro último, se «é melhor um fim horrível do que um horror sem fim?», sobre as dificuldades de Portugal, pergunto-me se os ovos e as carnes de porco e frango que os alemães distribuíram pela Europa fora, carregados de dioxina, não são esse laissez faire, laisser passer, que a Alemanha tenta impor à Europa para vender os seus produtos, mesmo tóxicos e causadores de cancro? Será que o Der Spiegel se esqueceu de como se soergueu a Alemanha, depois da derrota do nazismo, e da sua divisão em duas, e do que foi necessário consertar no mundo para se atingir a queda do muro de Berlim, e lavar à reunificação alemã? Tê-lo-ia conseguido sem o apoio financeiro dos aliados? Não é verdade que os fundos comunitários que provêm, maioritariamente, de verbas alemãs, não foram senão um dos meios de desenvolver os mercados «que passaram a comprar os produtos alemães ou daquele grupo de países que anda à volta da economia alemã», como bem o explica no P2 de O Público de sábado, numa excelente entrevista de que aconselho vivamente a leitura, Pedro Magalhães, politólogo, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. «O que vemos a chanceler Merkl fazer não é pensar na Europa. É pensar na saúde dos seus bancos, no interesse dos seus eleitores, porque é isso que garante a sua sobrevivência política. É isso que acaba por prender os políticos à terra, no sentido de que os prende a uma constelação de interesses dos seus eleitores e de prioridades que, em muitos casos, parece incompatível com muitas das coisas que se dizia que a Europa devia ser…». O que mostra que as duas visões da Europa, a do comércio livre e da união monetária, por um lado, e da união política, por outra, se extremaram, e conduzem a uma situação, que, sob a pressão da crise financeira causada pela ganância especuladora da finança e da banca, ressuscitaram o que a comunidade europeia combatia com a sua fundação: o nacionalismo exacerbado, causador das duas Guerras Mundiais. O que se desenha, hoje, numa Europa a duas velocidades, é o regresso da desigualdade das sociedades dos diversos países europeus, o fim do seu direito de solidário apoio para a construção dum futuro socialmente mais justo, menos desigual, um regresso ao salve-se quem puder da arbitrariedade e da exploração dos países mais fracos pelos mais fortes. São os próprios direitos democráticos que estão em jogo, disso não tenho a menor dúvida. E tudo isso porque a política se subordinou de forma corrupta e servil à ganância do poder económico, com os partidos a defenderem, não os interesses dos povos, mas os das suas clientelas.

 

Claro que nem todos os partidos são iguais, mas também, com sinceridade, hoje não sei bem o que os partidos portugueses, na sua quase totalidade, representam, quem representam. Debaixo do pano azul das ideologias, movem-se interesses bem mais mesquinhos e dirigidos ao domínio do poder. Concordo, neste ponto, com Pedro Magalhães, quando afirma que há uma necessidade de mudança nas relações Estado-cidadãos, partidos-eleitores de esquerda-centro-direita. Mudança que «tem de vir dos eleitores.Da indignação das pessoas. E também da comunicação social, porque ela é a ponte entre o mundo da política e os eleitores». Não coloco os partidos de lado. Eles são essenciais à democracia. Mas como creio que, se Eça de Queirós vivesse hoje, escreveria outros romances que os que, à época produziu, também as ideologias mudam, renovam-se, aprofundam-se, e os partidos já não andam descalços, nem de fato macaco, nem usam jaquetão. Se os partidos se refugiam no autismo, na estabilidade estagnada das suas raízes temporais, esvaziam-se por si mesmo e transformam-se em obstáculos do devir do mundo.

 

As eleições presidenciais deste mês de Janeiro são um desses momentos exemplares que os eleitores têm de mostrar qual o seu grau de indignação ou passividade ante o país que lhe oferecem e o país que desejariam que fosse. Ante um país de cócoras ante o poder económico e financeiro, ou um país livre e com capacidade de criar o seu futuro. Um país «orgulhosamente só», ou um país a querer ser – e a bater-se por isso – duma Europa social, democrática, solidariamente desenvolvida.

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