SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 11:23

Dia Internacional da Alfabetização

 

No próximo dia 8 de Setembro assinala-se o Dia Internacional da Alfabetização.

De acordo com o relatório Global de Controlo sobre Educação da UNESCO, estima-se que haja no mundo 781 milhões de adultos analfabetos. Destes, cerca de 520 milhões são mulheres. A somar a estes dados, aproximadamente 103 milhões de crianças não têm acesso à escola e, consequentemente, não aprendem a ler, escrever e contar.

 

Maria do Rosário é apenas uma das muitas “Marias do Rosário” espalhadas pelo nosso país.

No rosto traz o cansaço de uma vida sofrida, e as mãos enrugadas recordam uma vida inteira dedicada ao campo. Não sabe ler nem escrever. “Não conheço as letras tão pouco”, disse com ar triste.

 

Com mais de 80 anos diz que a “história que tem para contar é uma história triste”, envolta em sofrimento.

 

“A minha mãe morreu, quando eu tinha os meus seis anitos. Já muito doente, chamou-me a mim e aos meus irmãos para junto da cama dela e ensinava-nos a rezar. Esta é a última imagem que guardo dela. Quando ela faleceu, fiquei eu e os meus irmãos… A mim, o meu pai mandou-me para casa de uma tia. Mas ela não tinha filhos. E como tal nunca soube o que era dar amor a um a criança. Nunca soube o que era uma escola, uma igreja ou uma carícia. A criada, comia-lhe os bolos e dizia que tinha sido eu… Tanta sova apanhei eu daquelas mãos,”  recorda Maria com o olhar no chão.

 

“Quando voltei para casa de meu pai, ele tinha tornado a casar e a minha madastra tinha três filhas. Já se sabe que o meu lugar era apenas o de enteada. Nunca houveram mimos nem interesse por me levar à escola. Para assinar até hoje é com o dedo.”

 

Tempos difíceis em que cedo se começava a trabalhar no campo, e a escola ficava definitivamente para trás.

 

“Comecei a trabalhar no campo ainda não tinha 14 anos. Fazia tudo, tudo o que já não se faz agora, mondava, sachava, apanhava azeitona, lenha e figo. Levantava-me quando só ainda havia um quarto de hora de sol. Preparava o meu farnel e deixava preparados os dos meus irmãos e saia de casa para o campo. Era uma hora de caminho para cada lado. À noite depois de um dia inteiro a trabalhar no rancho entre um grupo de homens, vinha para casa a olhar para a berma da estrada, para ver onde me podia sentar para descansar um pouco. Não tenho vergonha de dizer que às vezes adormecia, sentada a cortar as couves…”

 

Célia Ramos

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