SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 15:25

À conversa com Vaz Teixeira: Do médico ao coleccionador de Memórias

 

José Duarte da Silva Vaz Teixeira, médico com especialidade na Gastrenterologia bem conhecido dos torrejanos, é também um coleccionador de memórias traduzidas em centenas de bilhetes postais ilustrados onde se documentam períodos da história torrejana. Depois de uma colaboração pontual com O Almonda no ano de 2000, com a publicação de quatro artigos sobre a História do Bilhete Postal, inicia nas próximas edições uma segunda participação neste semanário onde dá continuidade a este tema em torno do Bilhete Postal Ilustrado de Torres Novas.

 

“Sou uma espécie de João Sem Terra. Os meus pais eram trasmontanos, nasci em Ponte de Lima. Aos dois anos fui viver para a Guarda, e licenciei-me em Medicina, na cidade de Coimbra. Vim para Torres Novas em 1983. Estas são as cidades dos meus afectos e das minhas vivências marcantes.” Afirma Vaz Teixeira numa apresentação inicial.

 

Em 1979 finalizou a sua especialização em Gastrenterologia, e a par com a sua profissão esteve sempre o gosto pelo coleccionismo. Em criança coleccionava tampinhas de refrigerantes, mais tarde foram as canecas antropomórficas e zoomórficas, e os alfinetes de gravata, “que é um contra-senso porque eu nem gosto de usar gravata”, confessa entre risos Vaz Teixeira.

 

Na sua residência que mais se poderá comparar a um museu, encontram-se ainda outras pequenas colecções, uma dúzia de bengalas de características singulares, a curiosa colecção de peças de marfim, que conta com uma diversidade enorme de objectos, onde se encontram, por exemplo, bonitos e raros botões de quimono japoneses, até à colecção de numismática, entre outras.

 

Da colecção faz parte um bilhete postal escrito

pelo punho do pintor torrejano Carlos Reis

 

Um mundo à parte da medicina, onde este médico se refugia e põe à prova a paciência e a persistência, duas características que se destacam ao longo de uma conversa descontraída. Falta no entanto, falar da colecção que dá mote a esta entrevista. No total, serão cerca de 400 os bilhetes postais ilustrados de Torres Novas, onde se encontram verdadeira relíquias como, o primeiro postal ilustrado editado em Portugal, que tem a data de 10 de Junho de 1880, ou um bilhete postal escrito pelo punho do pintor torrejano Carlos Reis, onde este escreve algumas frases satíricas alusivas às raparigas da época e aos alferes da Escola de Cavalaria.

 

Uma boa dose de paciência e muita persistência estão por detrás de cada uma destas colecções divididas por temáticas diferentes mas que integram o vasto acervo de bilhetes postais ilustrados. Vai com frequência às feiras de velharias, e têm uma longa lista de contactos de alfarrabistas, embora estes sejam cada vez mais raros. Trocas com outros coleccionadores, visitas a leilões e muitas ofertas de amigos, conhecidos e até pacientes, que a meio da consulta médica, lhe confidenciam que se não aproveitasse aquele postal, o seu destino seria mesmo o lixo, são outras das formas pelas quais foi construindo estes pedaços de história de Torres Novas e de Portugal.

 

A expansão portuguesa, e a época manuelina

são dois temas de eleição

 

A expansão portuguesa, e a época manuelina são dois temas que apaixonaram Vaz Teixeira desde cedo, e pode-se dizer que foram mesmo “a alavanca” que desencadeou este gosto pelo coleccionismo de bilhetes postais ilustrados. “A expansão portuguesa é uma fase muito importante da nossa história que nos era antigamente apresentada de forma heróica. Éramos os maiores que íamos por esse mundo fora colonizar os «atrasadinhos». Esta realidade que me tinha sido apresentada como uma verdade absoluta, começou a ser posta em causa, à medida que vou adquirindo mais formação e nomeadamente, em Coimbra, através do meu contacto com estudantes africanos. Nesta altura verifico que a realidade de África era muito diferente do que nos era ensinado na escola primária. E começo a aperceber-me do quanto temos em comum, nós povo português com o povo africano. Por exemplo, apercebi-me com espanto que o crioulo de Cabo Verde não é uma língua estruturalmente africana, mas um português arcaico modificado e com pouco termos que sejam mesmo africanos. O 25 de Abril, por outro lado, que rompe como eu costumo dizer, com o ciclo do Império traz consigo a oportunidade de debate de ideias e confronto de opiniões e permite-nos assim reescrever a nossa história. O interesse pelo Manuelino surge assim, na sequencia disto mesmo. Como diz o Professor Pedro Dias de Coimbra, o Manuelino resulta da aventura ultramarina portuguesa , com o enriquecimento das populações, com o contacto com o exótico. O gosto por esta parte da nossa história em simultâneo com o facto de ter adquirido, por mero acaso, um grande lote de postais sobre este tema, sendo que, entretanto, já coleccionava selos e postais sobre a expansão portuguesa. Desta sua colecção fazem parte cerca de cinco mil tendo por tema o estilo manuelino, onde se retratam construções em Portugal e no Ultramar, aos quais se juntam outros dez mil postais alusivos à expansão portuguesa.

 

O “bilhete postal ilustrado é um elemento indispensável

para o estudo da história do século XX”

 

O “bilhete postal ilustrado é um elemento indispensável para o estudo da história do século XX” e, nas palavras do médico, o início da colecção de postais alusivos a Torres Novas inicia-se pelo gosto de “promover a história de Torres Novas, mas também, porque nasceu uma neta torrejana e, esta colecção de que eu sou apenas um fiel depositário, pois ela pertence à Inês, é também uma referencia para a minha neta acerca da terra onde nasceu.” Uma colecção que “me tem dado muito prazer, mas também muito trabalho”, prossegue Vaz Teixeira. “Porque ser coleccionador não é ser apenas um guardador de memorias, é preciso estudar, catalogar, organizar…”

 

Com o nascimento de uma neta nos Açores, a história repete-se e é iniciada a construção de um legado idêntico, mas desta feita, com bilhetes postais ilustrados dos Açores. Esta colecção levou, no ano de 2003, à realização de uma exposição sobre o tema “O Bilhete Postal Ilustrado nas Ilhas de S. Miguel e de Santa Maria” realizada em Vila Franca do Campo, na Ilha de S. Miguel.

 

Um sonho por realizar é a edição de um livro

 

Relativamente à possibilidade de uma exposição idêntica, em Torres Novas, Vaz Teixeira lamentou o “alheamento” por parte da autarquia em relação a esta ideia que é ao mesmo tempo, um projecto e um forte desejo deste coleccionador que não quer guardar apenas para si esta fonte de riqueza documental. “Já fora feitos pedidos de cedência de espaço e de apoios, mas sem qualquer resposta positiva por parte da Câmara Municipal de Torres Novas. Não por parte do presidente da Câmara, mas dos seus inferiores hierárquicos para quem este assunto foi remetido, que disseram não haver disponibilidade para fazer algo do género.” Lamentou o médico. No entanto, e graças a apoios exteriores à autarquia, o coleccionador já realizou diversas exposições, algumas delas estiveram patentes ao público fora das portas do concelho de Torres Novas, e que percorreram mesmo o distrito, tendo para isso contado com a estreita colaboração do Montepio de Nossa Senhora da Nazaré, Museu Agrícola de Riachos, Cine Clube de Torres Novas, Casa Memorial Humberto Delgado e Câmara Municipal da Chamusca.

 

Um sonho por realizar é a edição de um livro. “O postal ilustrado é importante na documentação da história de uma cidade. Hoje o bilhete postal ilustrado caiu completamente em desuso, mas se pensarmos nos inícios do século XX, ele é uma moda e é prova documental de muitos acontecimentos. Hoje não se escreve um postal, manda-se antes uma mensagem via telemóvel, inclusivamente com imagem de onde se está à namorada ou ao namorado. Mas o postal ilustrado também já teve o seu período de auge na sociedade portuguesa. Considero que a minha colecção em conjugação com outras de mais dois ou três coleccionadores em Torres Novas, poderiam dar origem a livro com muita qualidade acerca do bilhete postal ilustrado em Torres Novas, abrangendo áreas como o urbanismo, o Rio Almonda, as nossas figuras ilustres, os sectores do comercio e da indústria. Tenho a propósito disto, postais engraçadíssimos promocionais da Companhia Nacional de Tecidos e Fiação de Torres Novas”, conclui Vaz Teixeira.

 

Célia Ramos

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