SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 20:15

Maria Lamas (2/2)

A vida na época. A situação das mulheres

 

No fim do século XIX, e no primeiro terço do século XX, a vida portuguesa sofre grandes convulsões. Avultam nestes anos a implantação da República em 1910 e dezasseis depois a imposição da ditadura. Nesta época a situação das populações é muito afectada pelas modificações introduzidas pela industrialização e pelos fenómenos associados à migração dos campos para as cidades e para o estrangeiro. Agrava-se a situação das mulheres, pois a sua participação no mundo do trabalho assume novos aspectos, com novas exigências, pois começam a constituir uma parte importante da mão-de-obra industrial, para além do papel fundamental que já desempenhavam no sector agrícola. Entretanto, continuam a ser discriminadas em todos os aspectos, na vida política e económica, e mesmo nos direitos cívicos elementares. O direito ao voto e o acesso à instrução são dois campos em que a desigualdade de direitos entre homens e mulheres é evidente.


Algumas mulheres formam movimentos em vários países para combater este estado de coisas. As várias correntes existentes, de pendor conservador ou mais radical, coincidem na constatação da necessidade de promover a educação oficial para as mulheres. Refere-se, a este respeito, que a taxa de analfabetismo feminino em Portugal em 1900 era da ordem de 85,4 %, e que em 1930 tinha baixado apenas 10%, para 74,3. No mesmo período de tempo, a Espanha conseguiu uma redução da mesma taxa de 71,4% para 47,5%, conseguindo, portanto, uma redução em mais do dobro , apesar da semelhança de condições entre os dois países. Em Portugal a taxa de analfabetismo total era de 79,2 % em 1900, e de 67,8 % em 1930. Quanto ao Ensino Secundário, criado em 1888 (Liceu Maria Pia, que começou a funcionar em 1906), as raparigas, em 1908, eram 9,8% da população liceal. Em 1920 eram 24,20 %. Estes indicadores mostram as diferenças entre os sexos existentes na época no que respeita à escolaridade, e como elas dificilmente se corrigiram. A implantação da República, apesar das ideias de muitos dos líderes à altura, não foi acompanhada por um esforço eficaz no sentido da alteração da situação das mulheres neste campo (como noutros). Houve avanços e recuos no que respeita à legislação, e faltou levar à prática um plano consistente. Sob o Estado Novo continuou a avançar-se com dificuldade. Só devido à pressão internacional é que avançou a alfabetização em maior escala. E recorde-se que o ensino obrigatório nem sempre abrangeu o sexo feminino. O decreto-lei n.º 40.964, de 31 de Dezembro de 1956, alargou a obrigatoriedade do ensino escolar até à 4.ª classe, só para o sexo masculino, situação esta que só foi corrigida quatro anos depois, com o decreto-lei n.º 42994, de 28 de Maio de 1960.

A participação das mulheres na vida política em pé de igualdade com os homens só foi alcançada depois do 25 de Abril, com a promulgação da Constituição de 1976. Se a Lei n.º 2137, de 1968, já determinava que todos os cidadãos portugueses que soubessem ler e escrever eram eleitores da Assembleia da República, no que respeitava aos corpos administrativos (câmaras municipais, juntas de freguesia, juntas distritais) só os chefes de família eram eleitores, excluindo-se assim as mulheres casadas.

 

 

As origens

 

Maria Lamas (só viria a assumir este nome muito mais tarde, adoptando o apelido do seu segundo marido) nasce em Torres Novas, filha de um republicano maçom e de uma católica devota. Frequenta o Colégio das Teresianas, onde, entre outras influências, se familiariza com a obra de Santa Teresa de Ávila. Chega a ser aluna interna. Tem uma fase de misticismo, e pensa em professar. Então, o pai retira-a do convento. Poucos anos depois, casa e vai para Angola com o marido. Nasce-lhe ali a primeira filha. É portanto mãe aos dezoito anos. Aos vinte e um anos, já mãe de dois filhos, publica as suas primeiras poesias, iniciando a sua carreira de escritora. Divorcia-se aos vinte e seis anos, começa a trabalhar fora de casa aos vinte e sete, e casa pela segunda vez aos vinte e oito. Não é descabido sublinhar que começa desde nova a viver intensamente, numa procura constante de superar as contradições que sente entre a sua realização pessoal, os valores em que acredita e o que observa no seu dia-a-dia. Desenvolve um enorme interesse pelo trabalho com crianças e apercebe-se desde cedo da gravidade da problemática da mulher.


Ainda a viver em Torres Novas desenvolve acções de solidariedade, nomeadamente para com as famílias de soldados que combatem na I Guerra Mundial. Já a viver em Lisboa, a trabalhar para ajudar a família, que se debate com problemas económicos, contacta com a realidade do meio industrial, quando se relaciona com as operárias da Fábrica Simões. Relaciona-se também com os meios intelectuais e artísticos, onde encontra as mais diversas personalidades, como com o escritor Ferreira de Castro. Com este vai trabalhar na Civilização Editora, e será ele também quem a apresenta a João Ferreira da Rosa, que a admitirá em O Século.


Eugénia Vasques, numa comunicação ao Congresso Maria Lamas, realizado em 2004, no Porto, refere um escrito da homenageada em que esta revive a reacção que tem, aos dezoito anos, e vê uma fotografia de algumas das primeiras mulheres e jovens que vão frequentar as universidades portuguesas. Nesta sua comunicação, Eugénia Vasques acentua encontrar-se em Maria Lamas uma procura continuada de um caminho em que coincidam a auto-referencialidade e a sinceridade. Eugénia Vasques dá especial relevo à obra literária de Maria Lamas, como veículo de expressão dessa procura, sobretudo no que respeita aos romances que escreveu e que projectou. Mas tem de se constatar que a procura desse caminho não enforma apenas a obra romanesca de Maria Lamas; na realidade, é determinante em todo o seu percurso de vida, desde a sua juventude em Torres Novas.

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