SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 09:39

A aventura pelo Mediterrâneo de Telmo Sentieiro

 

Telmo Sentieiro chegou no Domingo, dia 30 de Agosto como estava previsto. Já em Torres Novas acedeu em dar uma entrevista a “O Almonda”, relatando a sua epopeia por terras distantes do Médio Oriente e pela Europa Central. A viagem foi na sua moto, uma BMW F800GS, que viveu com o Telmo uma grande aventura, de muitos quilómetros de estrada e de algum pó.

 

O que o levou a arriscar esta aventura?

 

A ideia de fazer a viagem surgiu de conversas com um amigo que esteve comigo no Afeganistão, ele também gosta muito de motos, e tem a vantagem de já ter mais experiência por já ter feito uma viagem relativamente grande de moto dado que já foi até à Escócia de moto e é muito mais viajado que eu. Não lhe consigo explicar porquê, mas sempre quis visitar o norte de África e o médio Oriente e recentemente delineei o objectivo pessoal de visitar as 7 Maravilhas do mundo e nesta viagem vi duas delas. A oportunidade de fazer uma viagem nestes moldes pode ser única, dado que acumulo férias do ano passado, férias do presente ano e férias por ter estado no Afeganistão, assim, dado o meu gosto por viajar pensei que seria interessante fazer uma aventura do género pois conjugo vários objectivos e sonhos.

 

Por que países passou?

 

No início tinha planeado passar por 22 países, como se pode consultar em www.mediterraneantour.org. Mas no final acabei por passar por 24 países se bem que 3 deles foi mesmo só de passagem. Assim sendo estive em: Portugal, Espanha, França, Tunísia, Itália, Eslovénia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Sérvia, Kosovo (dado que já foi reconhecido como pais independente por Portugal), Fyrom (Macedóna), Bulgária, Turquia, Síria, Jordânia, Israel, Chipre, Grécia, Hungria, Áustria, Eslováquia, Republica Checa, Alemanha, Suíça.

 

Em algum momento esteve em perigo?

 

Felizmente não houve situação alguma em que me sentisse em perigo ou ameaçado de perigo. Talvez a situação mais complicada, mas nada de especial, tenha sido na noite em que acampamos mas margens do Mar Morto. Nessa noite havia nas redondezas uns jovens um tanto ou quanto “agitados” que passaram a noite a beber e a fazer barulho… enfim, “a curtir a deles”.

 

Quais as maiores dificuldades por que passou?

 

Houve 2 situações, mas só uma delas foi realmente preocupante. A Primeira já estava identificada à partida e tinha perfeita consciência que seria difícil de ultrapassar, mas isso não nos impediu de tentar e mesmo assim partir com alguma esperança, uma vez que a esperança é a ultima a morrer. O problema foi a obtenção do visto de entrada na líbia. Depois de um mês em conversações com a embaixada da Líbia em Portugal, isto antes do início da viagem, e sem uma resposta positiva resolvemos tentar o consulado Libanês em Marselha, uma vez que seria lá que iríamos apanhar o ferry para a Tunísia. Desta forma, aquando da partida, tínhamos enviado um fax em que explicávamos a situação assim como a nossa identificação, mas todas estas tentativas foram em vão. Uma vez já na Tunísia restava-nos a embaixada naquele país. Estando previsto permanecer 5 dias por terras tunisinas, mas por lá ficámos 14, muitos dos quais passados à porta da embaixada e no final… nada. Chegámos a obter uma resposta positiva, mas no instante seguinte foi tudo por “água abaixo“. Desculpas de que se tinha detectado um surto de peste negra na localidade de Tubruq e que por isso as fronteiras estavam fechadas. Passada esta situação foi anunciado um novo fecho da fronteira dada a passagem clandestina de pessoas. No final acabámos por encontrar na embaixada dois portugueses experimentados na matéria que nos explicaram que agora as coisas estavam muito diferentes e que se fosse no passado nos poderiam ajudar a obter o visto em 3 a 5 dias, agora, segundo eles “está muito complicado”. Assim sendo lá voltámos para Itália com um novo objectivo delineado, chegar ao Cairo “pelo outro lado”.

 

Com o desenrolar dos dias vimos que seria muito difícil atingir o Cairo e as pirâmides de Gizé pelo que decidimos que chegar a Petra, na Jordânia, seria algo mais exequível e assim foi. Chegados a Petra começámos o nosso caminho de regresso e decidimos passar por Israel, aliás como estava planeado inicialmente. Esta passagem por Israel veio a constituir a segunda situação complicada, e esta sim, mais grave e mais stressante.

 

Não era novo para nós que a Síria e Israel não gozam de boas relações dada a ocupação israelita dos montes Golan, situação que está na origem de presentemente os dois estados estarem em “Guerra”. Por esta situação a Síria não deixa entrar no seu território quem tenha no passaporte um carimbo Israelita e nós estávamos perfeitamente cientes desta situação, pois tínhamos lido sobre ela. Assim sendo, quando chegou o momento de sair da Jordânia fomos advertidos de que muito provavelmente não nos seria permitido entrar na Síria, dado que as autoridades jordanas nos tinham carimbado o passaporte à saída para Israel. Não podíamos ficar indiferentes, pois esta situação impossibilitava completamente o nosso regresso por terra, contudo ainda tínhamos uma réstia de esperança pois tínhamos pedido para não nos carimbarem o passaporte ao que nos responderam que não teríamos quaisquer problemas ao regressar à Síria, pelo que confiámos, pensando que os carimbos seriam iguais em todos os postos fronteiriços. Tal não se veio a confirmar e a nosso entrada na Síria foi mesmo negada.


De volta à Jordânia, e após largos momentos de conversação com as autoridades jordanas, decidimos usar o nosso segundo passaporte numa outra fronteira a 30km da actual e mais uma vez a entrada foi-nos recusada pois não tínhamos carimbo de entrada na Jordânia, sendo de desconfiar que tínhamos entrado por Israel. Com tudo isto regressamos a Amman no sentido de contactarmos as autoridades jordanas e obtermos um carimbo de entrada no segundo passaporte.

 

No dia seguinte o desespero começava-se a apoderar de nós. Decidimos tentar encontrar soluções alternativas ao regresso por terra e começámos por uma agência de viagens. As coisas não estavam a melhorar, os preços para o transporte aéreo ou marítimo das motos era astronómico, para piorar não parecia haver ferrys do Egipto ou Israel para a Europa, não estava nada fácil… Ainda com o empregado da agência fomos à polícia turística procurando obter o tão desejado carimbo de entrada na Jordânia. Passámos por duas instalações e na segunda, com muita facilidade, obtivemo-lo. Logo o nosso ânimo voltou a elevar-se. Sem demoras voltámos a equipar e seguimos para a fronteira. Mas qual quê?!?!? Foi como bater num muro. Desta vez a solução apresentada era a embaixada da Síria em Amman pois parece que só ela pode emitir vistos para quem já tenha estado em Israel e seria isso que faríamos no dia seguinte. Conclusão, novo regresso a Amman.

 

Ainda nessa noite para descargo de consciência enviamos uma mensagem a um nosso amigo Israelita com quem tínhamos estado dias antes pedindo-lhe ajuda, a sua resposta foi quase imediata fornecendo-nos um contacto de uma companhia que supostamente fazia o transporte de mercadorias e passageiros para a Europa. Pela manhã ligámos para o contacto fornecido pelo Yuval tendo-nos sido informado que partiria nesse mesmo dia para Atenas um barco que pensávamos ser um ferry. Para tal era necessário estar em Haifa pelas 13:00 uma vez que o barco partiria as 15:00. Depois de muitas complicações próprias de quem esta com pressa e de muito tempo de espera na fronteira com Israel lá chegamos pelas 14:40, estávamos convictos de que só poderíamos seguir no ferry da próxima semana mas a empregada da agência disse as palavras milagrosas “ainda é possível”. Com uma eficiência incrível reservaram-nos bilhetes de ferry até ao Chipre e de lá para Atenas de avião, as motos seguiriam directamente para Atenas via ferry. Sem receio, e com muita pressa, lá nos dirigimos para o porto de embarque. No navio, nessa noite, parecíamos outras pessoas e pudemos apreciar a suave melodia do mar encontrando finalmente uma calma que constratava com a agitação dos dias anteriores.

 

O que faria de diferente se arrancasse agora?

 

Faria coisas de forma diferente mas nada de especial. Teria alterado algumas coisas na disposição do equipamento na moto, teria activado o rooming total, e, provavelmente, o mais importante seria munir-me de guias, ainda que preparados por mim, mas o mais importante seria levar um pequeno computador portátil pois teria facilitado muito a comunicação com o “mundo exterior”. Ah!!! Teria tentado deixar alguém para me actualizar o blog diariamente pois admito que para quem acompanhou via Blog tenha por vezes sido muito fatigante ver que as actualizações eram pouco frequentes e até mesmo insuficientes.

 

Como fez a sua alimentação? Que cuidados teve?

 

Não tivemos cuidados especiais. Queríamos comer onde “os locais” comiam e por isso comemos muitas vezes em restaurantes de berma de estrada. O único cuidado de maior foi o de não beber água sem ser engarrafada. Íamos preparados para preparar refeições instantâneas mas nunca foi necessário.

 

Como dormia?

 

Normalmente sempre deitado (disse a brincar). Sempre em Hotéis, Hostels ou campismo. Só por uma única vez tivemos que fazer campismo selvagem nas margens do mar morto.

 

Deu para confraternizar com os povos por onde passou? Algum povo o marcou particularmente?

 

No princípio sim, mas depois com o imprevisto da Líbia a verdade é que tivemos que ocupar o nosso tempo a andar um pouco mais de moto. Todas as pessoas por onde passámos nos receberam de braços abertos, muitos deles convidando-nos prontamente a visitar a sua casa e a sua família. Sentimos mais especialmente a hospitalidade de uma família tunisina que nos alojou em sua casa. Estas situações levaram-nos a questionar a hospitalidade portuguesa, que pensamos nós ser aquilo que tão bem nos caracteriza. Pensamos que muito dificilmente esta situação seria possível em Portugal.

 

Outro povo que me tocou especialmente foi o povo sírio, pois a sua simpatia era uma simpatia inocente, ou seja, as pessoas procuravam-nos e conversavam connosco sem uma segunda intenção, o mesmo será dizer: sem nos querer vender nada. A Síria é ainda um país quase em estado puro, com pouca interferência do mundo ocidental.

 

Tem alguma história peculiar para nos contar?

 

Nada de muito especial. Fica só o facto de ter sido muito bom confrontar algumas ideias pré-concebidas com a realidade. Vi coisas que, apesar de já ter visto na Índia e que por isso já não me impressionam de todo, não deixam de ser caricatas como é o caso de alguns prodígios automobilísticos nos países do médio oriente tais como Carros em sentido contrário nas auto-estradas, pessoas a vender na berma da auto-estrada….

 

Qual foi a importância dos seus patrocinadores para este desafio?

 

Muito importante! Os meus patrocinadores permitiram aliviar o esforço de organizar esta viagem e como é óbvio ajudaram a suportar os custos que são bastantes, como se imagina.

 

 

Já tem planos para uma próxima viagem? Vai dedica-la novamente a alguma causa?

 

Planos sim, e muitos. Ou melhor, um plano muito grande, mas por agora vou ficar por viagens menores, dado que se perspectiva ser o possível. Quanto ao projecto maior, vamos esperar para ver o que o futuro me reserva nos próximos 5 ou 6 anos, dado ser esse o tempo que penso ser necessário para planear e recolher os apoios necessário para esse projecto. Vamos ver….

 

Dedicá-la? Obviamente que sim.

 

Célia Ramos e Luís Miguel Lopes

 

 

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