SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 01:04

Barbearia Escudeiro, o último barbeiro da cidade

 

Alguns leitores deverão lembra-se da barbearia do José dos Santos, no antigo Largo do Carmo. Esta era uma das cerca de meia dúzia que existia à época na cidade de Torres Novas. Falamos do final dos anos 50. Hoje, para encontrar a única Barbearia da cidade, é necessário conhecer os recantos do centro histórico. No entanto, com facilidade se chega à Barbearia Escudeiro, no Largo da Hortelosa, onde Manuel Luís Escudeiro Martins já celebrou o 31.º aniversário desde a abertura deste estabelecimento. É o último barbeiro da cidade de Torres Novas e assim é com o orgulho e profissionalismo de quem aprendeu a gostar desta arte.

 

À conversa com “O Almonda”, nos pequenos intervalos entre um cliente e outro, Manuel Escudeiro recordou a Quarta-Feira de Cinzas de 1958, em que foi pedir emprego da Barbearia de José dos Santos. Na altura era comum os barbeiros aceitarem jovens para as funções de aprendiz: “Antes ainda trabalhei numa loja de solas e cabedais. Mas não gostei. Eu queria mesmo uma profissão, e um barbeiro, naquele tempo, tinha sempre trabalho, e os clientes davam gorjetas. Lá fiquei até 1967, ano em que fui para a tropa e depois para o Ultramar. Parti para Angola em Janeiro de 68. Quando regressei, voltei para a barbearia. Na altura ganhávamos à percentagem de sessenta por cento. Era bom!”, comenta Manuel Escudeiro. “Lembro-me que com o 25 de Abril, em que foi fixo um valor para o salário mínimo de 3.300 mil escudos, eu já ganhava à volta de 4.500 mil escudos. O patrão queria então dar-me só o salário mínimo. Não! Não! Porque eu já ganhava mais do que isso! E ao fim-de-semana, em casa, fazia os meus biscates, num espacito que o meu pai lá me arranjou!” acrescentou recordando os tempos de antigamente. Em 1977 saiu da barbearia que lhe ensinou a dar as primeiras tesouradas e estabeleceu-se por conta própria.

 

“Havia quem viesse fazer a barba às onze e meia

para estar feita no dia seguinte.”

 

“Comecei aqui no dia 15 de Fevereiro de 1978. Na altura havia doze ou treze barbeiros e apenas dois ou três cabeleireiros. Era diferente de agora. Havia muita barba para fazer. Ao Sábado, trabalhava-se até à meia-noite. E havia quem viesse fazer a barba às onze e meia da noite para estar feita no dia seguinte. Passei muita Passagem de Ano a pedalar a caminho de casa. Os meus pais moravam no Nicho dos Rodrigos e eu vinha para Torres Novas de bicicleta”. Aprendida a arte, havia que aperfeiçoá-la e dar-lhe um toque pessoal. “Era necessário ter cuidado com algumas questões. Às crianças, por exemplo, sempre lhes cortei o cabelo com pente e tesoura. O corte ficava com outra beleza. E é engraçado, hoje essas crianças, que hoje são já pais, continuam aqui a vir para cortar o cabelo aos seus filhos”, recorda. “Em 78 iniciei o sistema de marcações. Arranjei umas chapinhas com um número e consoante chegavam dava uma chapinha. Assim evitava as situações que frequentemente surgiam. Alguém saia para ir ao wc da taberna em frente ou para ir fumar um cigarro. Quando chegava o próximo e se aquele que se tinha ausentado, não estava, criava-se imediatamente a confusão. Assim, cada um sabia qual era a sua vez. Houve quem gostasse e houve também quem não achasse piada à inovação. Mas eu mantive esta maneira de trabalhar e até hoje é assim. Por telefone ou passando por aqui, os clientes fazem a sua marcação”, recordou.

 

Célia Ramos

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