SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 07:42

Memórias do Motorista da Quinta do Marquês

 

 Durante dez anos e seis meses Júlio Fonseca serviu os Condes da Foz, proprietários da Quinta da Torre de Santo António, também conhecida por “Quinta do Marquês”. Entrou para o serviço da casa como empregado de mesa e acabou como motorista. Entrou também para um mundo muito diferente do Portugal de 1957. Entre os vários “feitos” da sua passagem por aquele mundo conta ter servido Salazar por três vezes.

 

Os Condes

 

Gil José de Guedes Queiroz casou com a austríaca Gertrude Gertie (com o nome português de Gertrude Ramada Curto), que tinha uma grande fortuna pessoal. Gil José, filho do Marquês da Foz – Proprietário do Palácio da Foz em Lisboa, comprou a Quinta da Torre de Santo António, que era do seu pai, que estava empenhada para pagar dívidas no Tribunal de Torres Novas. Com a compra do terreno veio o título de “Conde”. Mas a propriedade acabaria por ficar sempre na memória popular como “Quinta do Marquês”.

 

Conseguir emprego

 

Júlio Fonseca aspirava a uma vida melhor. Queria um emprego “bom” e ouvia as pessoas falarem bem dos Condes da Foz. Na altura, em 1957, havia em Torres Novas um restaurante da Maria Grandela, junto à loja de ferragens dos herdeiros de José Alexandre Inácio. Entre as várias pessoas que lá iam petiscar encontrava-se o Capitão Travassos, o dono da Quinta dos Negréus, casado com a Sra. Maria José, filha de João Clara. Júlio Fonseca tinha confiança com e procurou que este desse uma “palavrinha” aos Condes da Foz. Júlio Fonseca sabia que os Condes estavam à procura de um empregado de mesa e com a ajuda do Capitão Travassos entrou para o serviço dos Condes.

 

Pouco depois de entrar ao serviço, onde ganhava 400 escudos por mês, começou a tirar a carta profissional, que lhe custou quatro contos. Esse empenho em progredir na sua vida profissional haveria de dar frutos mais tarde, sendo “promovido” a motorista.

 

Um mundo diferente

 

«Era um mundo completamente diferente ao que eu estava habituado», conta Júlio Fonseca. A “Quinta do Marquês” era frequentada pela alta sociedade portuguesa e europeia, fruto das ligações familiares de Gertrude Gertie. Frequentemente os Espírito Santo, os Condes de Cabral, os Mendia, e até o Ministro Teutónio Pereira (que “roubou” a Escola Prática de Cavalaria de Torres Novas e a levou para Santarém) frequentavam a casa.

 

«Servi o Salazar três vezes»

 

António de Oliveira Salazar visitou a “Quinta do Marquês” por três vezes, tendo sido servido por Júlio Fonseca, que recorda, «Veio à Quinta três vezes, mas só oito dias depois é que as pessoas sabiam que ele cá tinha estado». Das visitas recorda-se de ver muitos carros da PIDE e de que Salazar vinha almoçar, lanchava e que se ia embora, nunca pernoitando.

 

Para os empregados da casa era difícil saber do que tratavam os Condes e o Presidente do Conselho, pois muitas vezes a conversa era em Francês.

 

Precedia a visita de Salazar a visita de D. Maria, a sua governanta, que veio sempre ver as condições da casa, fazendo a sua avaliação e verificando as condições. Só depois é que Salazar vinha.

 

Luís Miguel Lopes

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