SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 16:23

Carros fora da Praça 5 de Outubro

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As futuras obras na Praça 5 de Outubro, com arranque previsto para Março, andam a inquietar alguns comerciantes do centro da cidade. O que o município pretende, indicou o Presidente da Câmara, é «devolver a Praça à cidade», retirando de lá os carros, tendo conseguido a concordância de todos os partidos políticos com assento na Assembleia Municipal. Só que o “timming” das obras deixou alguns comerciantes insatisfeitos e começaram a dar testemunho do seu desacordo, pois entendem que as obras irão prejudicar o seu negócio, já que a cidade não tem soluções para o estacionamento. Outros preferem que a Praça tenha uma intervenção rápida e célere, acreditando que o seu negócio só irá beneficiar com isso.

 

Esta preocupação dos comerciantes começou a despontar depois de ter existido uma reunião, promovida pela Município, para dar conta do programa camarário “CHERE”, mas a reunião acabou por abordar o problema da falta de estacionamento na cidade. O encontro terá gerado opiniões contrárias às da autarquia, com os comerciantes a levantarem muitas interrogações sobre a pertinência do “timming” da obra. Ninguém parece opor-se ao projecto de renovação da Praça mas temem que este venha em má altura.

 

O projecto de renovação da Praça 5 de Outubro

 

Menos elaborado que numa primeira versão, abandonando a ideia de criação de lojas e de casas de banho na parede longitudinal da Praça, o projecto de renovação da Praça propõe a retirada dos automóveis, a recuperação do tabuleiro que existe, o embelezamento da área, a pavimentação com calçada nos locais onde existe alcatrão, conseguindo-se assim «Devolver a Praça às pessoas».

 

Decisões políticas…

 

Contactado pelo “O Almonda” o Presidente da Câmara explicou que a obra consiste praticamente numa «reposição do que já lá existe» e que «Não existem alterações de fundo», acreditando ainda o autarca que a intervenção «só irá beneficiar os comerciantes locais».

 

António Rodrigues recordou ainda que hoje em dia já «é proibido estacionar na Praça 5 de Outubro, de acordo com os regulamentos municipais» e que apenas se foi permitindo ali estacionar «para ajudar os comerciantes», tendo em conta que a Câmara «iria fazer uma intervenção na Praça», declarou o autarca. Recordou ainda o edil de Torres Novas que, após concluída a obra, irão existir na Praça e na subida para o castelo «lugares de estacionamento», que terão parquímetros, o que «irá permitir que mais lugares estejam disponíveis do que agora», acreditando assim que esta medida disciplinadora «irá melhorar o estacionamento no local» pois com os parquímetros «permite-se que passe a existir uma maior taxa de variação de ocupação», enquanto que «hoje em dia os carros estão lá de manhã até à noite».

 

Sobre o descontentamento dos comerciantes em relação ao “timming” da intervenção António Rodrigues justificou-se, «Qualquer “timming” é mau para alguns comerciantes. Mas começando a obra agora ficará concluída antes do Verão. Se a fizesse depois iria prejudicar os comerciantes na época de Natal, o que os prejudicaria ainda mais», e ainda acrescentou «Para mais as candidaturas aos fundos europeus obrigam-nos a cumprir prazos», e rematou, «A obra é em prol de Torres Novas».

 

 

Comerciantes a duas vozes

 

Não existe um consenso declarado entre os comerciantes que foram auscultados pelo “O Almonda” nesta questão. Embora um número razoável, se bem que em menor número, entenda que o projecto da remodelação da Praça tenha sido feito «um pouco às escondidas», e defendem que o projecto deveria resultar de um processo mais abrangente, que incluísse historiadores e homens da cultura torrejana. A grande maioria não gosta da ideia de o Centro da Cidade ficar desprovido de um local de estacionamento “central”, mas o que mais polémica levanta será o arranque das obras (previsto para Março) acontecer praticamente ao mesmo tempo em que terá início as obras do Parque de Estacionamento do Almonda Parque, que depende apenas de uma entidade privada, havendo quem declarasse, «Não se pode resolver ir para obras só porque se acha que isto vai ficar engraçado». Reclamam então alguns comerciantes, «Há que arranjar soluções para o estacionamento antes de arrancar com a obra».

 

Por outro lado há comerciantes que se mostraram a favor da obra, como é o caso de Artur Fernandes, proprietário do Hotel dos Cavaleiros, «O benefício que o meu negócio vai ter com a saída dos carros da Praça 5 de Outubro é maior do que aquele que existe agora», e ainda acrescentou, explicando o seu ponto de vista, «Para o cidadão e para aquele que nos visita, uma Praça bonita no centro da cidade é muito mais atractiva do que um local cheio de carros», rematando logo de seguida, «A maior parte dos carros que ali estão hoje em dia não são dos clientes do comércio local, são dos próprios donos dos estabelecimentos ou dos funcionários». Artur Fernandes disse ainda que apenas vislumbra algum problema às terças-feiras, pois nos outros dias haverá no Almonda Parque e em outros locais da cidade, sítios suficientes para estacionamento, «é tudo uma questão de educação», concluiu. Este olhar sobre o problema é partilhado por um número razoável de comerciantes, que estando junto do interlocutor manifestaram a sua concordância.

 

Outros comerciantes auguram um apressar do definhar do comércio tradicional com o acabar do estacionamento na Praça, e reclamam, «se fizerem as coisas em cima  do joelho, e não derem condições às pessoas, isto [lojas] fecha tudo», e acrescentou, «Veja-se o que aconteceu na Rua Cândido dos Reis, fecharam-lhe o trânsito e hoje está morta».

 

Nas conversas mantidas com os diferentes comerciantes do Centro Histórico foi possível perceber que a maioria até gosta da ideia de ver a Praça 5 de Outubro recuperada, mas mesmo entre esses há quem conteste o “timming” do município.

 

 

Partidos apoiam remodelação… com reticências

 

Solicitámos aos responsáveis dos partidos com assento na Assembleia Municipal uma breve declaração sobre a remodelação da Praça 5 de Outubro, e encontra-se nas declarações um ponto comum, todos concordam que a Praça deve ficar liberta de carros.

 

Bloco de Esquerda

 

A praça 5 de Outubro deve ser tratada e acarinhada, representa a “alma torrejana”. As obras devem preservar e valorizar aquele espaço.

 

O comércio só tem a ganhar com a devolução da Praça ás pessoas, aliás o mesmo se passa com o Centro Histórico se não tiver pessoas o comércio asfixia. O que tem prejudicado seriamente os comerciantes é o licenciamento inexplicável de tantas superfícies comerciais, como aquela que agora está para abrir junto ao Beira-Rio, mesmo dentro do Cento Histórico e que teve no BE a única oposição a tal construção.

 

CDU

 

A remodelação da praça 5 de Outubro tem sido uma matéria tratada pela CDU ao longo dos anos, com debates públicos, propostas, textos publicados e intervenções na Câmara e Assembleia Municipal.

 

O projecto final contempla algumas das propostas que a CDU apresentou, tais como: A recuperação do tabuleiro da praça e a sua devolução à população com o terminar do estacionamento automóvel e o abandono da ideia inicial de colocar casas de banho na parede longitudinal da praça. O manter a opção de colocar o tabuleiro da praça ao mesmo nível da estrada delimitando de uma forma “artificial” a zona pedonal e de estacionamento/circulação automóvel, é, em nosso entender, errado.

 

As decisões quanto ao tráfego automóvel devem ser estudados no quadro mais amplo de toda a zona histórica, tendo em conta os restantes projectos previstos para toda a área e sempre à luz do princípio de criar novas dinâmicas e revitalização do Centro Histórico.

 

PS

 

As obras na praça 5 de Outubro decorrem de um parecer consensual de toda a população de Torres Novas: é necessário intervir na praça, é necessário remodelar este espaço que é o coração e o centro da nossa cidade. Assim sendo, e após vários estudos que ao longo destes últimos anos têm sido feitos para esse local, urge avançar com as obras e procurar, com isso, evidenciar o empenho que a Câmara Municipal põe na requalificação do Centro Histórico e procurar levar consigo, e com esta sua obra, os particulares a apostarem no Centro Histórico da cidade.

 

Temos consciência que as obras implicam incómodos para todos: população residente, comerciantes, utentes de serviços e demais população. Mas, agora ou depois, as obras teriam sempre de avançar e os incómodos haveriam sempre de surgir, mesmo que nada se fizesse. Defendemos também a retirada definitiva de veículos desta praça, que é um dos espaços mais nobres da cidade. Esperemos é que tudo decorra na normalidade e que os imprevistos que geralmente surgem sempre que há obras em centros históricos não surjam ou, se surgirem, possam ser resolvidos com a brevidade indispensável à boa conclusão desta obra.

 

PSD

 

O Partido Social Democrata defende que a Praça 5 de Outubro deve ser devolvida aos torrejanos. Concordamos com o projecto que existe para o local, desde que se respeite o antigo tabuleiro, procedendo à sua recuperação, e que sejam encontradas soluções que satisfaçam todos os torrejanos. Não devemos esquecer que a Praça 5 de Outubro é um cartão de visita da cidade e que é um património que deve ser respeitado.

 

O PSD entende também que a obra de recuperação deve acontecer causando um mínimo de impacto negativo no comércio local, já de si debilitado. Defendemos por isso que deveria ser encontrada em primeiro lugar uma solução para o problema do estacionamento na cidade, tendo já para o efeito avançado com algumas sugestões, como o aproveitamento da antiga garagem dos claras para aí fazer um silo de automóveis. A recuperação do património é, no nosso entender, sempre tarefa obrigatória em qualquer geração, mas prover para que os cidadãos torrejanos possam ganhar o seu dia a dia é ainda mais. Em resumo, queremos a Praça devolvida a todos os torrejanos, mas queremos também que isso aconteça numa altura em que haja já a solução de estacionamento, pois um centro histórico sem vida, sem pessoas e sem carros, é um centro histórico sem futuro.

 

 

A história de um nome

 

Escrevia Artur Gonçalves, na obra “Mosaico Torrejano” que a Praça 5 de Outubro era a principal da vila de então e que o seu nome comemora a data da proclamação do regime republicano em Portugal, conforme havia sido deliberado pela Câmara Municipal a 13 de Outubro de 1910. Antes tinha dimensões «bem acanhadas» e denominava-se “Praça dos Paços do Concelho”, tendo depois passado a “Praça do Comércio” e em 1909 teve o nome de Praça D. Manuel II, «em memoração da visita que o último monarca português fizera a Torres Novas».

 

Dizia ainda Artur Gonçalves que a Praça 5 de Outubro «é o principal centro do mercado das segundas-feiras e onde nas calmosas noites estivais a população torrejana vem espairecer em busca de algum fresco, até às vinte e duas horas e a mocidade flirtar (desculpem-nos o híbrido anglicismo)»

 

 

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