SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 02:36

Homem

 

Adivinho-te na berma da noite, numa réstia de sol, na onda marinheira, na manhã de nuvens. Sei-te de braços vazios, as mãos inseguras lutando contra tudo. Perplexo, indeciso, timoneiro num barco de lianas e lágrimas, sei-te trancado num canto, as portas fechadas para barlavento, sentado na intemporalidade do teu querer, nos novelos da alma, enrolado até à exaustão.

 

Sei da tua fronte humedecida pela raiva de te perderes, quando sentes o hoje e o amanhã, testando-te o diagnóstico que sabes, mas recusas.

 

Sei-te perdido pela Cidade e, ao cair da noite, colares o corpo emaranhado de sombras, sem defesa,

na margem que sangra até doer, e onde descansas o corpo marcado; cercado de memórias exaltadas.

 

Sei que te amas e te odeias, amarrado nas insónias quando a mentira dói, e a tua consciência se questiona no calafrio da intolerância.

 

Sei-te perdido ante a realidade programada sem Deus.

 

Se for preciso, não hesitarás em virar-te contra ti.

 

Não te conheço, não sei quem és, mas sei dos teus olhos vermelhos, dos teus braços mordidos, dos teus sonhos desfeitos na massa informe do pó branco que te apodrece as veias.

 

Homem, pensa em ti, combate-te, acredita que te encontrarás quando quiseres. Porque dizes sim à vulgaridade, à coincidência, ao deixa andar?

 

Porque não resistes? Porque não dizes; não! Experimenta, di-lo bem alto, no cimo da montanha recheada de vida, e onde encontrarás a túnica verde que, vestida, te dará alento para saltares para o outro lado da noite e onde mora o sol.

 

Homem, estou preocupado contigo por saber que, no fundo, te detestas…

 

Homem, ergue os ossos da alma, tempera-te de fé e de querer.

 

“Querer é poder”.

 

Conheces Deus? Não? É estranho… eu também não… mas acredito, Ele anda por aí à tua procura. Segue-O, fala-lhe de ti, bebe a sua palavra, onde encontrarás o monstro da sabedoria e do amor. Homem, quando voltar a encontrar-te, sei, serás a explosão do homem com quem sempre sonhaste: um ser humano atento, vigilante, caminhando pela estrada da vida, livre como um pássaro numa manhã de Primavera.

 

Um abraço.

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