SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:01

Matilde

 

Matilde viu a luz difusa no fundo da rua. Entrou a medo no canal sem saída. Sentou-se num velho portal. Nos cascos da noite, no silêncio encharcado de cardos bravos a envolvê-la de ruídos, a açoitá-la contra os muros negros da sua vida sem perspectivas de mudança, tudo a mastigar a dor em que se encontrava, ante as portas intransponíveis da noite.

 

Matilde descansou a cabeça nas mãos, apertou as fontes doloridas. Pensou: – Onde vou buscar forças físicas e morais para penetrar no antro roxo, onde vou vender-me num programa que não elaborei, mas que me tem cativa? Matilde sabia; fora a sua beleza que a envaidecera com as honrarias masculinas. Haviam-lhe prometido um futuro tão risonho, tão aliciante… Tirou da bolsa um espelho, onde se viu tão distante da rapariguinha em flor que ela tinha sido… não se reconheceu. O seu rosto era uma máscara, uma mistura carregada de sombras reluzentes e inquietantes. O cabelo verde caía-lhe pelos ombros nus em cascatas sinuosas, que, desprovido da sua cor natural, castanho escuro, era um insulto à sua condição feminina. Matilde sentiu saudades da menina que ela fora e, onde tudo era ilusão. Fora essa ilusão que a levara a deixar tudo para seguir um sonho mau; Família, amigos, Deus.

 

Pensou em Deus, falou-Lhe: – Ó Meu Deus, que hei-de fazer para me reencontrar? A minha família não me conhece, não me espera, sofro desesperadamente, nada me chama para continuar a vender-me… ajudai-me Senhor, dai-me uma luz… tenho trinta anos… se me ajudares a arranjar um trabalho honesto, deixarei esta vida ultrajante… E chorou, chorou, as lágrimas fizeram-lhe no rosto, rios fantasmagóricos e desumanos.

 

A luz vermelha continuava a indicar-lhe o caminho negro por onde enveredara por vaidade e desconhecimento. Um pouco tonta, deu alguns passos, os braços descaídos, as mãos vacilantes, a alma? A alma a desprender-se de si; não a sentia em conivência com a noite provocante.

 

Foi quando viu a criança enrolada numa colcha de farrapos, no vão duma escada tão escura como a noite. A mulher viu a figurinha pequena, por certo sofrida. O que sentiu fê-la tocar-se nos restos de calor sobre o ventre, sobre os seios. Não hesitou… deitou-se ali na pedra fria, encostou-se à criança, apertou-a nos braços; adormeceu.

 

O menino sem Deus acordou. Pensou deslumbrado: – Será Deus?… Ele terá mamas e boca para beijar? Ou seria a mãe? A mãe que fugira da pancada e da fome e morrera por isso? Inocentemente enroscou os braços em volta daquela coisa quente, beijou o rosto mascarado da mulher sombra, perguntando-lhe: – És Deus, a minha mãe ou um milagre?

 

Matilde gargalhou, soluçou, despiu os farrapos do ofício, vestindo-se com as velhas franjas rastejantes. Disse ao menino, afagando-lhe os caracóis amassados de chuva e pó: – Não sou Deus, não sou a tua mãe… um milagre? quem sabe… será que o teu sofrimento me despertou para longe desta mulher da noite? Queres ir comigo para o outro lado da manhã? É lá que moram o sol e a liberdade… levas-me contigo?

 

O menino sem Deus não percebeu muito bem as palavras da mulher palhaço. Mas… sentindo-se bem nos braços que o cingiam, levantou-se, dizendo-lhe que sim… iria com ela… chamava-se João… para onde iriam?

 

Matilde deixou de ver a luz vermelha no fundo da rua. Deu a mão a João, que lha apertou com força. Caminharam para longe dos seres esquecidos… nem sabiam para onde…

 

Do outro lado da rua a manhã esperava-os. Uma nesga de sol indicou-lhes a estrada liberta para onde se encaminharam. Deus, cúmplice deste milagre, abençoou-os, descansando, enfim.

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