SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 01:48

A chave da Vida

 

O homem caminhou pela berma do tempo. Pensou; logo criou. O seu eu, insatisfeito, oriundo de um suspiro de água, quedou-se ante um templo verde de aroma silvestre. A música e a chama do tempo abriram-lhe as mãos, os braços, as espáduas. O homem viu-se envolvido pelos troncos sinuosos, onde grandes olhos claros, o sondavam a permanecer; era um convite. Do tecto verdejante e diáfano, galhos azuis derramavam oiro sobre as violetas vermelhas, anunciando auroras felizes. Enleios de urze e alecrim, entrançavam toda a galeria luminosa. O sol, capataz de capa rubra, ceifava as ervas daninhas que doíam.

 

No centro de toda a fantástica porcelana rosa e verde, o homem viu uma velha cadeira tecida de juncos e raízes de trigo. Sentou-se. Doíam-lhe as pernas. Era um ser humano, estava cansado de remar contra a maré. As águas da solidão haviam-no impedido de florir ante as tempestades da vida. Mais sereno, envolvido pelo ar obstinado de Abril, tomou nas mãos uma liana cor de terra, enredou-a na fronte. Agradecendo a Deus pela dádiva daquele sonho de luz e água, onde a terra se abria, dando-lhe a ouvir a voz das raízes narcisantes.

 

O homem fechou os olhos e, pensou longamente. Das parras ondulantes, como por encanto, nasceram letras que, abraçadas e dançando, lhe disseram as leis primárias para o ser humano seguir pela berma do tempo, de bem consigo: logo com os outros. O homem leu-as perfeitamente consciente, enquanto o suor do seu rosto adubava uma orquídea descuidada. Eis as palavras: Fraternidade, coragem, aventura, igualdade, alegria, aceitação, silêncio, partilha, crianças felizes, idosos amparados, sensibilidade, paz, enfim…

 

O homem ouviu a canção contemporânea das águas lentas do agora. Mas, ele sonhara um pouco mais! O seu eu gritou no compacto cego do sonho. Inquieto, olhou as folhas esmeraldinas. Elas pareciam esperar algo. Assim, sentindo as asas pégasas a cavalgar-lhe nas têmporas e, sentindo uma lágrima da alma até aos ossos, orou ante a manhã que rondava as nádegas do dia: Por Deus, este sonho é lindo! Estou surpreso e feliz! Vim aqui à procura de algo que falta no meu eu para me sentir completo… e o amor?

 

Onde está o amor?

 

Uma terna florinha, deslizou pela teia verde e branca e, caindo-lhe na cabeça habitando-lhe o cérebro, disse-lhe: – Homem tens razão! O amor é a base fundamentalmente humana, para que, orquestrada harmoniosamente, nasça uma partitura irradiante de vida. Aqui tens a razão da tua vontade de sonhar, logo viver, criar! Numa profusão de sentimentos, a alma gargalhou vibrante, fazendo valsear ao som de Liszt a chuva primaveril. O homem encontrou entre os cristais matutinos, uma chave mais velha do que o tempo; era a chave mestra, a sabedoria a arder-lhe nos contornos sábios.

 

Que faço com esta chave? Perguntou expectante… Respondeu-lhe uma gota vermelha de sangue: – Homem, vai! Corre pela berma do teu tempo. Não tropeces, não pises. Essa é a chave do amor! A chave da Vida! Serve-te dela com inteligência. Que Deus te abençoe! O homem ergueu-se: Apertou fortemente nas mãos a chave que lhe abriria para sempre as portas da alegria. Elevou o pensamento para Deus, orou: Obrigado Senhor por este sonho onde encontrei a minha realidade, o meu rumo, o meu eu. Tenho a chave da Vida e do Amor. Amo! Sei, doravante tudo será mais fácil. Por Deus!

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