SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 16:08

A Tesoura de Minha Mãe

 

Minha mãe sentava-se numa cadeira pequena, e dizia-me com ar malandreco: – Ó nina, aloa-me aí essa teiga da costura. Fiz o mandato, sentando-me junto dela; gostava de a ver coser. Minha mãe foi dizendo: – Dá cá um trabalho pôr fundilhos nas calças do teu pai… e as ceroulas? Fico com os dedos doridos e picados… é a vida!…

 

Disse-lhe: – Ó mãe, gostava tanto de saber coser como a mãe… diga lá… como se faz essa costura?

 

Minha mãe, alegre e presenteira lá me explicou: – Olha bem… esticam-se as calças e corta-se o que está safado… assim… dá-me daí essa tisoila que me caiu no chão. E, cortando dum e do outro lado, depois alinhavou os fundilhos nas calças de meu pai. Perguntei: – Ó mãe fica assim tão feio com esses pontos tão grandes? Minha mãe, agradada com o trabalho e com a prosa, respondeu: – Ó nina, atão isto ficava assim tão desgraçadinho? Não senhor… agora vou cosê-las com ponto atrás e linha da mesma cor. Vais ver como ficam arranjadinhas… ainda duram um tempão!

 

E sempre de dedal no dedo, a agulha parece que dançava, ia fazendo o seu trabalho a primor. Eu teria os meus dez anos, estávamos sentadas na casa de fora, a porta aberta para entrar o sol. Fazia cá um frio! Ah saudade, saudade destes bocadinhos em redor da braseira a aquecer o chão de cimento.

 

Minha mãe acabou o trabalho. Lesta, foi buscar o ferro de engomar meteu-lhe dentro brasas muito vivas e, muito cuidadosa, abriu as costuras do avesso, passando depois os fundilhos que ficaram uma beleza. As calças vincadas a preceito… era assim que meu pai gostava. Ah mãe, minha mestra do ponto atrás, coser e voltar, passajar, remendar, enfim… com muito amor ensinou-me o que sabia.

 

Quando minha mãe foi para o Céu, minha irmã disse-me: – Como tu gostas tanto de coser, a teiga, o dedal, as linhas e as agulhas são para ti. Abracei-a, agradecendo-lhe a ideia gentil e meiga.

 

Ora bem… durante muitos anos servi-me destas relíquias mátrias. Um dia necessitando de cortar algo, não encontrei a tesoura da minha querida mãe, fora-se, desaparecera. Virei a casa de pernas para o ar, gavetas, armários, teiga… nada. Chorei, orei, amargurei-me… a minha tesoura fora-se, sabia Deus para onde… enfim… lá me acostumei com a perda de tão valiosa prenda.

 

Os anos foram passando e, quando me apetece costurar ou cortar papel ou pano, lembro a tesourinha de minha mãe. Um dia destes estava a fazer a limpeza à despensa, tirei do seu sítio a caixa arrumo o ferro de engomar. Como o papel que forrava a mesma estava velho, tirei-o… e, ó maravilha das maravilhas! A minha amada tesoura estava ali à minha espera. Emocionada, agarrei a, beijei-a, encostei-a ao coração. Estava escura, suja, mas era a mesma de sempre. Depressa, fui buscar um pano velho e experimentei cortar… então não é que, a mafarrica da tesoura deslizou pelo pano afora? Ainda se lhe nota a marca de origem; Corneta. Mandei-a limpar; ficou linda!

 

Minha querida mãe, Maria Zabeleta, a tua tisoila; na teiga mágica onde guardava os teus haveres de costura.

 

Esta pequenina teiga, o seu mistério e história, acompanha-me nos serões quando me apetece costurar. Obrigada saudosa e querida mãe, pela recordação linda da tua tisoila, a deslizar como por magia nas tuas mãos de fada.

 

«tisoila», maneira provinciana e antiga de dizer tesoura.

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