SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 00:28

«O Povo é Quem Mais Ordena»

 

António Vinte e cinco de Abril de 1974. Sete e trinta da manhã. Acordei, ouvindo na rua um barulho novo. Uma onda de vozes cantava a boa nova. Que teria acontecido, meu Deus? Expectante, alvoraçada, saltei da cama. Liguei o rádio. O meu coração bateu em uníssono com a voz de Zeca Afonso. Emocionada, cantei com ele: «Grândola, Vila Morena, Terra da Fraternidade, O Povo é Quem Mais Ordena, Dentro de ti ó Cidade».

 

Debruçada na janela vi o meu povo entrançar-se num grande abraço, os beijos estalavam no ar, as cantigas, numa partitura nova de linhas e espaços iguais para todos os cantores, entoavam a Sinfonia da Liberdade. Depressa, muito depressa, vesti qualquer coisa, juntando-me aos milhares de portugueses que, na Praça Grande da minha terra, extravasavam a alegria do ansiado encontro com o futuro. Lágrimas, muitas lágrimas nos olhos cansados de esperar. E, num grito antes sufocado, cantavam: Liberdade! Liberdade! Viva a Democracia! Vivam os heróis que, sem uma gota de sangue arvoraram a Revolução do Amor, a Revolução dos Cravos! Somos Livres! Somos Livres! Forçados pelos imperadores da ditadura, a matar a sede da verdade desta incomparável manhã? Nunca mais!… Vinte e quatro de Abril? Jamais!…

 

Alguém me deu um cravo e um beijo. Com ele ao peito engrossei o cortejo. Foi o dia mais brilhante e exultante que, até hoje, vivi. Pela TV, vi as grades prisionais abrirem-se de par em par, delas saindo os portugueses, homens e mulheres que, por dizerem a verdade, por lutarem contra a ditadura salazarista, a mesma os tivera aprisionados, sujeitos a todas as violências orquestradas por mentes criminosas e inescrupulosas. Foi comovente. Chorei de emoção vendo sair alguns amigos; entre eles dois alcanenenses: Luís Moita e Isabel Moita.

 

Enfim, era a Liberdade! Há tanto sonhada, por todos amada.

 

25 de Abril 2009. Abri a minha janela, olhei em redor, nem vivalma… Não ouvi cantigas, não vi abraços, os cravos não serraram fileiras, murcharam esquecidos; o palavreado dos homens do poder, são uma ofensa às suas raízes de partilha, saúde, educação, bom senso e amor em todas as frentes. Contrariamente ao que seria de esperar, milhares de portugueses sofrem na pele e na alma a violência do desengano que os coloca numa expectativa depressiva e enervante. O desemprego atinge uma fracção assustadora das classe média e baixa, provocando o desequilíbrio natural e consequente a esta calamidade. A fome impera nos lares deste povo que cantava, trabalhava, divertia-se, amava: agora chora por ver os filhos sem pão e sem o conforto habitual. Perguntam-se: – Que havemos de fazer? Nada? Mas… nada é mesmo nada!… Diz-me um amigo de Torres Novas: Que hei-de fazer? Estou sem tusto… a arca está vazia, eu e a mulher comemos menos… sabe… as crianças estão a crescer, até podem adoecer com falta disto e daquilo… Vou roubar? Outra gaita, não é? Claro que não quero fazê-lo, mas… Eu sei lá o que um homem faz, com dois meses de renda para pagar, já tenho a luz cortada, devo na mercearia, um dia destes cortam-me a água, sem dinheiro para remédios, a mulher também está desempregada, coitada… ela bem procura por tudo quanto é lado… nada… sempre nada. Estou com muito medo do futuro… O governo lá vai anunciando que as coisas vão melhorar um pouco, temos de ter calma, a crise é mundial, está atento, e tudo fará para sanear o desequilíbrio causado pelas falências… por falar em falências; sabe que eu não acredito na veracidade de muitas falências… é tudo para ajudar o pai que é coxo… é moda falir… e aí vão os patrões, fecham os portões, ficam cheios da narta. Pode acreditar, muitas destas falências são fraudulentas. Se o governo quer saber se isto é verdade, pois que faça auditorias a muitas delas, sendo que, assim, o governo agiria no seu pleno direito do seu a seu dono; as empresas seriam obrigadas a funcionar, logo o desemprego seria menor. É tudo uma questão de querer fazer. «Querer é poder».

 

Confesso, esta conversa com um amigo, os noticiários televisivos, informação jornalística, esta onda de inesperada desconfiança a todos os níveis, fez nascer em mim o espectro do medo e, certamente o sentirão os portugueses bem informados.

 

Bem, amigos camaradas de trabalho, por Deus não desistam. Isso é o que quer muito boa gente. Estais vivos, ergam os braços e as vozes reclamando os direitos adquiridos. Entrem na rua, abracem-se, sintam a vossa razão, façam dela um estandarte verde e rubro. Ergam-no bem alto! Mostrai a quem vos traíu a força adormecida dos vossos braços. Não mostreis medo. As celas de 24 de Abril não voltarão a abrir-se. Está tudo nas vossas mãos. «O Povo é Quem Mais Ordena». Às vossas ideias iluminadas sede leais. Com a força dos fracos, cantai a cantiga mais bela que nos cantou Zeca Afonso:

 

Grândola Vila Morena, Terra Da Fraternidade

O Povo É Quem Mais Ordena, Dentro De Ti, Ó Cidade

24 de Abril… Jamais!…

25 de Abril, Sempre!

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