SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 04:00

João Jaló: um guineense em Torres Novas

 

João Fernandes Saido Jaló, oriundo da Guiné, muçulmano, está há sete anos em Portugal. Deixou a família, tendo decidido trabalhar e estudar no nosso país. Deseja, num futuro próximo, construir uma vida melhor para si e para os seus. Quando se fala da vida escolar, os seus olhos brilham, tal é o gosto que possui em frequentar a Escola Secundária Maria Lamas. Conversámos com ele.

 

JV – O que te trouxe ao nosso concelho?

  JJ – Quando vim para Portugal, comecei por trabalhar nas obras, depois fui vigilante de um Hotel na Foz do Arelho. Este último emprego permitiu-me estudar nas Caldas da Rainha e concluir o 2º Ciclo. Entretanto, fui transferido para as Terras Pretas, a fim de tomar conta de uma quinta, e, mal cheguei ao concelho, matriculei-me na Escola Maria Lamas. Como se vê, tento tirar o melhor rendimento das possibilidades que tenho em frequentar a escola.

 

JV – Então, que curso frequentas actualmente?

JJ – Frequento o Curso de Formação de Adultos (EFA) – Ensino Secundário, inserido no programa “Novas Oportunidades”. No ano transacto, completei o 9º Ano.

 

JV – O que significa para ti estudar no nosso pais?

JJ – É a concretização de um sonho, visto que me possibilita consolidar aspectos da língua portuguesa e adquirir uma grande variedade de informações, impossíveis de alcançar, neste momento, no meu país.

 

JV – Sentes-te descriminado na escola?

JJ – De modo algum, todos – professores, alunos e funcionários da Maria Lamas – me receberam, desde o início, com carinho e me aceitaram como sou.

 

JV – Pensas continuar os estudos depois do 12º Ano?

JJ – Com certeza. Gostaria de fazer uma licenciatura em Direito e, caso seja possível, frequentar um curso na área da Gestão de Empresas.

 

JV – Porquê estas opções de formação?

JJ -É um modo de me realizar pessoalmente e também de contribuir para o desenvolvimento do meu país, que necessita, como é sabido, de quadros devidamente preparados. Ainda na Guiné, fui incentivado a criar uma empresa de exportação de castanha de caju, mas, como não tinha conhecimentos neste sector, desisti da ideia. No entanto, com uma preparação técnica adequada, esse projecto é viável no futuro.

 

JV -Sei que vais com alguma frequência a Lisboa. Quais são os motivos que te levam à capital?

JJ -Estou muito ligado, como é natural, à comunidade guineense. Participo em diversas cerimónias religiosas e ajudo os meus compatriotas no preenchimento de formulários ou de outra documentação. Também dou, por vezes, explicações de língua portuguesa e presto informações sobre aspectos ligados ao dia-a-dia, uma vez que determinados hábitos e costumes portugueses são diferentes dos nossos. Deste modo, procuro promover a integração dos guineenses na sociedade portuguesa.

 

JV -Fazes o percurso entre as Terras Pretas e a cidade de bicicleta, quer chova quer faça Sol. Qual é a principal causa do teu empenho e alegria de viver?

JJ – Como sou muçulmano, procuro aceitar tudo aquilo que Deus me destinou e sigo a Sua palavra e o Seu exemplo.

 

JV – A partir das tuas vivências, que mensagem gostarias de deixar aos torrejanos?

JJ -Recordo que há pessoas noutros pontos do mundo – e refiro-me, por exemplo, ao meu país – que querem estudar, mas não podem. Deste modo, apelo aos jovens, os homens do amanhã, que aproveitem o melhor possível os meios e as condições de que dispõem nas escolas. A aquisição de saberes vai constituir, sem dúvida, uma significativa vantagem no percurso das suas vidas. Já agora, desejo agradecer aos professores, aos funcionários e a todos aqueles que me têm ajudado na minha formação.

 

 

Entrevista conduzida por José Manuel Ventura

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