SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 12:04

Carlos Reis – Em defesa do Mestre Silva Porto (2)

O pintor Columbano Silva Porto do Museu

Silva Porto destacar-se-ia como um dos mais importantes pintores da sua geração. Bolseiro em Paris, de lá trouxe ideias novas, confundindo-se o seu nome com a introdução do Naturalismo em Portugal. Outro pormenor associado ao Mestre de Carlos Reis foi o ensino ao ar livre. Prática pedagógica que implementaria enquanto professor na cadeira de “Paisagem”, da Academia Real de Belas Artes.

Carlos Reis seguiria o exemplo do seu mestre neste modelo de ensino. A “Sociedade Silva Porto” e o “Grupo Ar Livre” – criados pelo torrejano ilustre – tinham em comum o contacto directo dos alunos com a natureza.

Para melhor sublinhar a sua revolta, acompanhemos as linhas inéditas da sua carta, dirigida ao jornalista Guedes de Oliveira. Um dos elementos fundadores da Sociedade Portuense de Belas Artes. Na parte introdutória da missiva, o torrejano ilustre esclarece alguns equívocos lançados pelo jornal “Diário de Lisboa”, a propósito da organização das obras de Silva Porto pelo Estado. Negando ser o Presidente, em Lisboa, de uma Comissão constituída no Porto, com o objectivo de levar as pinturas de Silva Porto para o Museu “Soares dos Reis”. Medida que recebeu o apoio incondicional de Carlos Reis. A grande admiração que Carlos Reis nutria por Silva Porto levou-o, até, a erigir no Casal da Lagartixa, na Lousã, um obelisco à memória do Mestre. Por essa razão sentiu-se traído, quando Columbano “desmantelou o conjunto de obras de Silva Porto”, colocadas “carinhosamente” por si no museu.

Como a carta é bastante extensa (são 12 páginas!), comecemos a transcrevê-la a partir do referido assunto:

 “ (…) Agora, já não é um mal-entendido que quero deslindar. São explicações que lhe vou dar sobre a frase da entrevista que se refere ao Museu “Soares dos Reis”.

 A opinião que dei sobre a ida dos quadros para este museu é bem minha. O redactor não pôs nada da sua lavra, pelo contrário, esqueceu-se de dizer quais as razões especiais para não desejar que os quadros dessem entrada no museu de cá. Eu me explico.

 O primeiro Director do Museu Nacional de Arte Contemporânea, fui eu. Fui eu quem durante três anos aturou desde o mais recalcitrante ministro até ao trabalhador mais mandrião, sofrendo todas as más vontades do Conselho de Arte e de Arqueologia. Sem esquecer as surdas maldades daqueles que pretenderam este lugar. Durante esses três anos adaptei as velhas salas do antigo museu como hoje se vêem, e constituí num pátio a actual galeria de escultura. Lá consegui um dia, ao cabo da mais medonha luta, inaugurar as salas de pintura, e, na que eu classificava de sala de honra, agrupei carinhosamente com toda a minha religiosa adoração o mesquinho número de quadros do meu grande mestre Silva Porto, grupo que eu considerava indestrutível como se essas parcas telas fossem um monumento levantado ao maior pintor português, verdadeiro representante pela arte do génio português até agora não igualado.

 Pois meu amigo, três dias depois da inauguração destas salas, um decreto extinguira o lugar de director do Museu de Arte Contemporânea, sendo nomeado o senhor Columbano para me substituir não como director porque esse lugar tinha desaparecido, mas como não sei quê, que se não sabia bem, mas que não recebia o ordenado pela razão simples de que o lugar se tinha extinguido.

 É claro que pouco tempo depois era nomeado director o mesmo senhor Columbano, passando, é claro também, a ganhar o ordenado que eu ganhava, tal qual como o mais simples dos mortais.

 A primeira coisa, além de muitas outras, que se seguiram e que serão relatadas nas minha memórias que serão brevemente publicadas [estas memórias nunca foram impressas], a primeira coisa que este resolveu praticar no museu foi desmantelar o conjunto das obras de Silva Porto, colocando essas jóias de inestimável valor dispersas por entre quadralhões nem sempre formosos e chegando a irreverência a retirar algumas, das salas, e colocando a admirável “Napolitana” junto ao tecto da sala de entrada por cima de obras medíocres, conforme todos têm constatado e o meu Exmo. amigo pode verificar. Ora, quem leva a sua maldade ou estupidez [talvez possam acrescentar-se opções de ordem estética distintas], como director de um museu a pretender apagar um nome glorioso da nossa Arte, o mais eminente pintor português que até hoje nasceu em Portugal, desrespeitando não só a sua obra como a admiração de toda uma geração de artistas que vêem em Silva Porto o maior mestre da nossa arte, não se pode confiar a um espírito tão curto e vingativo a guarda de preciosidades que ele não compreende nem sequer respeita.

 Estes são factos que se verificam; e, neste momento que se levanta um clamor contra a hipótese de desaparecerem em colecções particulares a obra do grande mestre que deve para todo o sempre ficar exposta à admiração do mundo, onde todo o mundo possa ir admirar a todas as horas, eu dei o meu parecer a favor do museu do Porto, porque aí (sei-o perfeitamente) ele será respeitado como o não tem sido no museu de Lisboa, e todos nós teremos a garantia de ver permanentemente a obra do grande mestre no lugar de honra que lhe compete, não ficando sujeito à contingência de ceder de tempos a tempos o seu lugar a obras de outros pintores medíocres, como se Silva Porto pudesse estar sujeito a esse monstruoso crime. 

 Perdoe tão indignada como justa revolta do seu admirador e amigo.

 Carlos Reis ” (Carta escrita a 15/06/1921).

Apesar das impulsivas e duras palavras do torrejano ilustre sobre a “traição” de Columbano, à memória do seu mestre, Carlos Reis nunca deixou de considerar o irmão do caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro como um dos maiores pintores portugueses.

No seu pequeno livro “Columbano – Ensaio biográfico e crítico” (1941), Varela Aldemira narra

o episódio do corte de relações que sofreu, por parte de Carlos Reis e do seu filho, João Reis, motivado por uma sua desconsideração sobre o pintor Columbano (incómodo que, mais tarde, seria ultrapassado). (op. cit., pág. 71-72). O apagamento da amizade entre os dois pintores não toldou o imparcial juízo crítico de Carlos Reis sobre a genialidade artística de Columbano.

 

Vitor Antunes

Texto escrito com a antiga ortografia.

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