SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 07:13

Iniquidades na Primeira República (1)

“ Minha querida mãe

Recebi a sua carta. Muito agradeço o cuidado com que me tratou dos livros. Rogo-lhe a fineza de me avisar do dia em que vêm e de não demorar muito a remessa; porque por estes dias devo precisar de alguns que lá vêm.

Então quando se resolve a vir até aqui? Olhe que a Alzira, por todo este mês de Novembro, vai fazê-la, por sua vez Avó. Creio que tudo correrá muito bem, porque a Alzira anda mesmo bem-disposta e alegre. Não tem sofrido nada durante estes meses últimos.

Penso, a este respeito, dar-lhe uma explicação: Se a criancinha viver (como espero e a Deus peço), há-de ser batizada nas proximidades do Natal. Minha mãezinha há-de assistir, sem falta ao batizado. Os padrinhos são: o Artur (representando a nossa família) e a minha sogra (representando a família da minha mulher). Se a não escolhi a si para este primeiro batizado (apesar dos pedidos da minha sogra) foi pelo seguinte:

Eu desejava representar no batizado as duas famílias. As duas pessoas de mais consideração e com mais direitos eram as duas avós. Mas, não podiam ser duas mulheres, era preciso escolher um irmão de um dos lados. Ora, incontestavelmente, o lugar cabia mais a meu irmão (que tem mais idade, está casado, e tem um filho de que sou padrinho) do que a qualquer dos irmãos da Alzira. Por isso, ficou o meu irmão do meu lado e a mãe da Alzira do outro.

Se Deus me der mais algum filho, e nos conservarmos nas disposições de hoje, – será minha mãe madrinha e um de meus cunhados padrinho; – e do terceiro filho (se vier) será outro meu cunhado e a Isabel ou a Aurora, etc, etc.

Não acha assim bem?

Não fica malcontente comigo?

Creio que não, porque a conheço e porque sabe quanto devo ao Artur, para não admirar que eu queira dar-lhe este testemunho de reconhecimento, pelo muito que ajudou meu paizinho na maior parte da minha educação literária, e pela boa amizade que sempre me tem consagrado.

Foram estes sentimentos que me fizeram convidá-lo para ser padrinho do meu casamento e para padrinho do meu primeiro filho.

A minha mãe devo ainda mais; mas como havia de esquecer-me da sua bondade e do seu espírito sempre pronto a concordar comigo? (…)”

Caro leitor, desculpe a ousadia de transcrever quase na íntegra a presente carta inédita, escrita em Novembro de 1894, da lavra de uma das grandes personagens da história nacional do século XX. A ideia era mostrar-lhe uma faceta algo desconhecida da figura política mais importante da primeira República. Poucos diriam que esta curiosa missiva tem o cunho do chefe político que, dezasseis anos depois, desencadeará um dos mais fortes e cruéis ataques ao catolicismo. A ele se deve a expulsão das ordens religiosas, após o 5 de Outubro, e a autoria do polémico decreto da “Lei da Separação do Estado das Igrejas”, promulgado em 20 de Abril de 1911. Falamos do ministro da justiça do Governo Provisório, Afonso Costa; porventura o mais querido e odiado dos portugueses que viveram entre 1910 e 1930.

Se passarmos os olhos pelo conteúdo da carta, encontramos o texto repassado de palavras que reflectem a fé de um crente. Ao estar prestes a nascer o seu primeiro filho, a quem deu o nome de Sebastião (em 15 de Novembro de 1894), é a Deus que dirige a prece para que nada de mal lhe aconteça. Pede também, à sua mãe, para que esteja presente no batizado, a acontecer na altura do Natal. Na eventualidade de ter mais um filho, reconhece o papel da providência divina nessa bênção. Nesta fase, ainda não lhe assaltaram à mente o propósito – dito numa sessão magna do Grande Oriente Lusitano Unido-, em eliminar completamente, após duas gerações, o catolicismo.

O que terá levado Afonso Costa a abdicar da sua formação religiosa? Julgamos que o ponto de viragem ocorre na altura em que ingressa na loja maçónica O Futuro, em 25 de Novembro de 1905, onde adopta o nome simbólico de Platão. Muitas das suas acções no período da República, estão marcadas pelo cunho ideológico da Maçonaria. Com base nos seus princípios e na doutrina do Positivismo, desfere (no período em que chefiou o Ministério da Justiça) um feroz ataque aos membros da igreja e religião, contribuindo para que se abrisse uma fenda profunda na população portuguesa, geradora de ódios e perseguições.

Se na pasta das Finanças, Afonso Costa desenvolveu um trabalho meritório e digno de registo (a par de Oliveira Salazar, foi o único ministro da República que conseguiu o equilíbrio orçamental com saldo positivo; aconteceu nos anos económicos de 1912-13 e 1913-1914), a actividade desenvolvida, nos primeiros passos após a instauração do novo regime, é bastante reprovável. Foram anos marcados pela espoliação dos bens da igreja e constante humilhação dos seus prelados e praticantes.

Logo no começo da República, muitos padres são presos sem qualquer culpa formada. Fizeram-se várias campanhas difamatórias contra os religiosos. As freiras também não escaparam à sanha da perseguição. Para denegrir a sua imagem, obrigaram-nas a desfilar nas ruas centrais de Lisboa com almofadas no ventre para fazer crer ao povo que elas tinham engravidado nos mosteiros.

Fazendo uma leitura superficial ao decreto, podemos aceitar o fim a que se propõe, ao pretender separar as funções da igreja e do Estado. Porém, a medida escondia outros objectivos: desmantelamento da instituição religiosa, legalização do saque aos seus bens e intromissão nas práticas de culto e seminários.

(continua)

Vitor Antunes

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