SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 13:00

O Primeiro Círculo

Pelas 19 horas, o “homem aquário” chega aos bastidores da TV com a finalidade de anunciar mais algumas medidas draconianas a implementar no seu tão sacrificado país. A pobreza que inexoravelmente vai enlaçando uma grande franja da população não o demove a abandonar a intransigente e estúpida defesa da austeridade. Sob o signo demoníaco da palavra, milhares de cidadãos são atirados para uma vida inútil e tortuosa, adquirindo as suas existências contornos semelhantes a um inferno.

Prostrado na sua pose de grande líder ensaia em frente do espelho do camarim as palavras que irá pronunciar para a enorme plateia de espectadores que, mormente desiludidos, anseiam por um pequeno alívio do flagelo de sacrifícios que lhes vai roubando a esperança. Mas, na face gélida do “homem aquário” não mora a mais pequena compaixão pelo outro. Dois mundos distantes separam o poder, onde circula, da massa anónima de cidadãos que compõem a realidade do país. Ao estar perante os eleitores é como se o olhar fosse trocado através da espessa parede de vidro de um aquário. Toda a densidade humana é eliminada pela incomunicabilidade que emerge.

Despojados do estatuto humano, a maior parte dos cidadãos do país adquirem a crua volatilidade de simples números. Se a folha de Excel ou os caprichos das estatísticas exigirem, o “homem aquário” e o ministro de voz pausada e olhos de peixe amortecido, com um simples clicar nas teclas do computador apagarão as excrescências que impedem as percentagens harmoniosas dos seus gráficos. Os seus cérebros de iluminados anseiam sofregamente por moldar o mundo à singularidade e perfeição das barras e números do Excel.

Antes de começar a sua declaração, no pensamento do “homem aquário”, ainda ecoam os protestos exaltados da turba esfaimada que o esperava nas diversas cerimónias em que esteve presente. Não compreende a sua ingratidão. No alto da superioridade de técnico e político, vê com algum desdém a ignorância do povo face ao seu desinteressado esforço em melhorar as condições de vida dos habitantes do país.

Agora está outra vez perante os cidadãos com o intuito de exaltar as virtualidades das suas acções e indicar os responsáveis pelo fracasso de algumas das sábias medidas implementadas. Um ódio oculto e ressentimento chispam por detrás das lentes dos óculos. Jamais esquecerá o opróbrio a que foi votado o seu inefável mentor político.

Às 20 horas inicia a comunicação repetindo ao longo dos primeiros parágrafos o culpado das novas e impopulares reformas. O anátema recai sobre o Tribunal Constitucional. Esta instância é o verdadeiro entrave do progresso material e civilizacional que o “homem aquário”, na sua boa-fé, vislumbra para o país. Ofuscado pela aura de grande líder, acredita que todos os poderes devem estar sujeitos aos ditames da sua razão fria e dejectos ideológicos.

Se as relações laborais se aproximam de uma escravatura camuflada; se é necessário eliminar trinta mil postos na função pública ou sobrecarregar os trabalhadores com mais horas de trabalho e menos direitos, o verdadeiro culpado dá pelo nome de Tribunal Constitucional. Também a degradação do Estado Social e a delapidação do erário público é da inteira responsabilidade desta instância. Os casos, B.P.N., P.P.P., Swaps e os monstruosos roubos perpetrados aos dinheiros públicos, apenas têm um nome: Tribunal Constitucional.

Por essa razão o “homem aquário” mais uma vez veio provar a infalibilidade e presciência dos seus cálculos. Habita nas suas insondáveis entranhas o desejo de que um dia a folha de Excel deixe de apresentar erros ou desvios, mesmo que isso o obrigue a desertificar o país ou a reduzir os cidadãos à simples função de máquinas produtivas.

Imunes às catástrofes e dramas que se abatem sobre as pessoas reais, cabe ao “homem aquário” e comparsas zelar para que a bênção dos gráficos e percentagens aconteçam.

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