SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 14:42

Cenas de um episódio rocambolesco

Humberto Delgado é enquanto personagem histórica uma figura bastante conhecida. A maior parte dos portugueses coloca o seu nome no pedestal das raras personalidades importantes do país que, pela sua coragem e firmeza de princípios, fizeram estremecer a hegemonia política de Salazar.

É célebre a conferência de arranque da sua candidatura à presidência, efectuada no antigo café Chave de Ouro, na manhã de 10 de Maio de 1958, onde, a uma questão feita pelo jornalista, Lindorfe Pinto Basto, sobre o que faria ao Presidente do Conselho (Oliveira Salazar), caso fosse eleito, pronuncia, desassombradamente, “Obviamente demito-o!”. Num Portugal amedrontado e triste, as palavras do general sem medo tiveram o condão de despertar consciências, levando o povo a acreditar que mesmo as mais férreas ditaduras podem ser derrubadas.

Este acontecimento inscreve-se num dos vários exemplos que revelam a faceta voluntariosa e aguerrida de Humberto Delgado. Desde a publicação do seu primeiro livro “ Da pulhice do Homo Sapiens”, a vida do general foi apimentada por declarações e actos desmedidos, que iriam enquadrar a sua vida na esfera trágica.

Os gregos na antiguidade caracterizavam este tipo de comportamento através do conceito de hybris, que acompanha o destino de algumas das personagens nas tragédias dos autores clássicos. Quase sempre a confiança excessiva, o orgulho exagerado do herói trágico (que roça a presunção), sofre o castigo da ira divina. Os antigos deuses gregos fulminavam os seres que sobressaíam demais (hamartia), não lhes permitindo ir além da sua condição de simples mortais. Também Humberto Delgado pagou caro o seu atrevimento (foi brutalmente assassinado), por ser o rosto da contestação ao regime fascista.

Depois das eleições, vê-se forçado a pedir asilo na Embaixada do Brasil. Ultrapassados os vários obstáculos colocados pela ditadura salazarista (que o queriam prender), chega ao Recife, no dia 21 de Abril de 1959. Foi no país irmão que se registou uma das peripécias mais rocambolescas da sua acidentada vida. Um caso onde os actos do General sucumbiram ao poder catalisador da sua hybris.

Aconteceu no Banquete Comemorativo, oferecido pela Federação das Associações Portuguesas (um feudo salazarista) em honra de Francisco Negrão de Lima, que iria ocupar o cargo de Embaixador do Brasil em Lisboa. Sabendo da iniciativa da homenagem ao chanceler, Humberto Delgado aprestou-se a aderir ao evento. Pretendia com a sua presença minorar a influência e o monopólio do “braço” salazarista, na relação com o governo brasileiro.

Estando à venda os bilhetes para a cerimónia, logo o General compra o seu. Só que, mais tarde, recebeu uma carta onde lhe foi devolvida a quantia do ingresso, anulando a sua inscrição sem apresentarem quaisquer razões. Ofendido com a atitude dos organizadores, Humberto Delgado profere que apenas desistiria de comparecer se publicassem nos jornais “uma declaração discriminatória” onde frisassem que o evento estava reservado aos simpatizantes do Estado Novo. Como não se retrataram, o General fez-se acompanhar por dois oficiais da justiça da 4ª Vara Civil, para fazer cumprir o interdito proibitório do Juiz Atílio Farim, que lhe dava razão. Por volta das 20h 30m, de 18 de Novembro de 1959, Humberto Delgado tirou do bolso do smoking, todo branco, o convite (nº52) e mostrou-o ao porteiro do Clube Ginástico Português. Nesse momento, a voz intimidatória do Comendador António Sarda fez-se ouvir, afirmando:

– General, o senhor não vai entrar!

Ao que Humberto Delgado ripostou: – Com a justiça brasileira eu entro!

Um período de impasse estabeleceu-se, no qual Delgado insistia energeticamente em fazer cumprir a determinação do Juiz. Aquecidos os ânimos, o Comendador Sarda, perdeu a cabeça e dá um violento soco na face esquerda do General. Logo é secundado por outros elementos da Associação que o vêm auxiliar com intuito de bater no General. Surpreendido pelo gesto rasteiro do vice-presidente da Associação das Federações Portuguesas, Humberto Delgado defende-se “como um leão, com uma agilidade de moço, distribuindo socos e pontapés a valer”, acertando na testa do investigador Raul Sobral, da Divisão da Polícia Política e Social, que participara na briga desde o início, desrespeitando a sua figura de representante da lei. Um episódio invulgar, pelo facto de ter como protagonistas altos dignatários e de estarem vestidos em traje de cerimónia.

O “rififi”, como é descrito na terminologia brasileira, foi suspenso com a chegada do inspector Soares. No fim da contenda, Humberto Delgado apresenta apenas um ligeiro arranhão na face esquerda, não sofrendo mossas evidentes na luta de corpo-a-corpo. Questionado por um repórter sobre eventuais feridas, o General respondeu-lhe:

“Eu treino todo o dia para isso, meu filho!”

Profere depois as seguintes palavras:

“Num General de verdade não se bate sem apanhar também. Só lamento que uma cena tão vergonhosa tenha por palco solo brasileiro.”

Neste episódio Humberto Delgado vê-se privado do seu relógio-pulseira de ouro (tinha incrustado as suas iniciais) que na refrega lhe foi arrebatado. Exclama com pesar o acontecido: “ Esse vai ser o meu maior prejuízo, pois um simples relógio representa muito para um General pobre”.

Solicitada a presença do Juiz para prestar esclarecimentos sobre a aplicação da justiça brasileira, tudo apontava para que a situação fosse desbloqueada. Só que deu-se a primeira reviravolta com a chegada do Secretário-Geral do Itamarati, Fernando Alencar, que veio ao local saber do próprio Humberto Delgado detalhes sobre o incidente.

Esclarecidos os pontos de vista, os acontecimentos encaminhavam-se no sentido para que o General entrasse no Ginásio mais os seus três acompanhantes. Mas deu-se o golpe de teatro final. O juiz Atílio Parim revoga o seu próprio despacho, proibindo a entrada de Humberto Delgado na cerimónia. Os apelos e influências dos militantes salazaristas surtiram efeito.

O General aceita o veredicto de cabeça erguida, retirando-se do triste local numa viatura particular. Fez saber à imprensa, através das palavras do professor Almeida Carvalhal, os verdadeiros motivos da sua presença: “ Pretendiam entregar ao Embaixador Negrão de Lima uma caneta de ouro, simples recordação da sua actuação democrática quando, à frente do Ministério das Relações Exteriores, encontrou uma solução digna para o exílio do General Humberto Delgado”.

Podemos reconhecer que nalgumas situações o poder da hybris levou o nosso conterrâneo a cometer acções embaraçosas e pouco reflectidas. Mas sem a sua força a vida de Humberto Delgado restringir-se-ia à vivência de um simples oficial do exército, enredado nos seus interesses particulares. É a emanação do poder da hybris que levam o General a enfrentar o regime fascista, como porta-voz da liberdade e esperança do povo, constituindo-o como um paradigma do herói trágico.

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