SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 18:03

Cartas da prisão

Estamos a alguns dias de comemorar a passagem do 25 de Abril, data que simboliza a libertação e o nascimento da democracia no nosso país. Ao contrário de outras efemérides ligadas ao triunfo da liberdade sobre a ditadura ( 5 de Outubro e o 1º de Dezembro), hoje ainda vamos podendo festejá-la num ambiente de confraternização. Isto porque nenhum governo, por mais retrógrado que seja, tem a ousadia de apagar declaradamente a sua lembrança. A curta história e a forte presença de Abril na nossa memória colectiva não possibilitam, neste momento, um atrevimento dessa natureza.

A revolução dos cravos teve o condão de suprimir um período negro, marcado por atrocidades e repressões perpetradas pelo regime fascista que se manteve no poder por mais de quarenta anos. Relembrar Abril é honrar a memória daqueles que deram parte da sua vida para que um dia eclodisse um Portugal melhor, onde todos pudessem ser livres. Num país em que a justiça e a igualdade funcionariam como os motores e alicerces do bem-estar social.

Nesta luta pela conquista da liberdade, muitos foram os indivíduos vitimados por enclausuramentos injustos e arbitrários. As prisões funcionaram como uma das marcas visíveis do implacável aparelho repressivo do regime, na tentativa de calar as vozes que afrontavam a ordem instituída pelo Estado Novo.

Caxias, Tarrafal e Aljube são nomes que nunca deveriam ser esquecidos, por estarem associados ao que existe de mais vil e abjecto na natureza humana. Milhares de cidadãos passaram pelos seus corredores e salas. António Santo, António Maia, António Santos Graça, Francisco Canais Rocha, Fernando Antunes Canais, Manuel Santo, José Ribeiro Sineiro, foram alguns dos torrejanos que mais tempo estiveram no cárcere das prisões, pelo simples facto de exigirem um pouco de justiça, pão e liberdade.

Houve quem perdesse a vida: José Moreira, natural de Vieira de Leiria, preso no dia 22 de Janeiro de 1950 em Vila do Paço, concelho de Torres Novas, arremessou-se pela janela do 3º andar, estatelando-se no pátio, tendo morte imediata. Manuel Vieira Tomé, apareceu enforcado, depois de o sujeitarem a choques eléctricos e arrancarem-lhe as unhas dos pés.

A maior parte das vítimas permaneceram por longos períodos na cadeia em condições sub-humanas e sujeitos a todo o tipo de maus-tratos. Os testemunhos dão-nos a conhecer experiências traumatizantes, que se agarraram à pele e alma dos presos, fundindo-se em medos, insónias e sofrimentos. Trágicos pedaços de memórias que acompanharam (ou acompanham) as suas vidas até ao último suspiro.

Um depoimento sobre esta amarga experiência, perpassa nas linhas da correspondência epistolar do dramaturgo Luís de Sttau Monteiro, preso no Aljube, por estar supostamente implicado no golpe militar acontecido em Beja, no dia 1 de Janeiro de 1962. A vivência da prisão marcá-lo-á indelevelmente: ” Por dois dias estive preso no Aljube, uma indescritível prisão que nunca irei esquecer, mesmo que viva cem anos.”

Os prisioneiros políticos eram colocados em celas de pequenas dimensões, os afamados curros ou gavetas, situados no 2º andar do Aljube. Quando a tarimba se encontrava em baixo, apenas restavam uns meros 15 centímetros até à parede contrária, o que dificultava qualquer movimento natural do preso. Estas instalações mantinham-no incomunicável. Acresce o pormenor de a escuridão das gavetas e as condições insalubres do espaço, cumpriam o objectivo principal de humilhação do prisioneiro.

Isolado do contacto com os outros, Sttau Monteiro confessa à sua esposa, o sentimento de estar a perder a capacidade da fala: “ Minha querida June

Que lhe hei-de dizer? Que os dias vão passando e parece nunca mais querem acabar? Que estou sozinho há tantos dias que tenho medo de não saber falar?”

Transferido para Caxias, o autor da peça “Felizmente há Luar”, descreve algumas das práticas comuns dos torcionários da PIDE nos trajectos dos presos para as celas: “Quando vim de Aljube o agente que me trouxe passou o caminho a insultar-me (…) com aquela coragem que vem facilmente a um homem com uma arma no bolso e que está separado do companheiro que ele está a insultar por uma rede de ferro e três outros agentes.”

Mas mesmo no espaço frio e hostil das prisões do Estado Novo, há páginas escritas pelos prisioneiros onde moram a poesia e a esperança por um radioso amanhã. Por vezes, em simples mensagens endereçadas à esposa e aos filhos. Textos capazes de transfigurar a mais sórdida situação num raro momento de beleza. Um desses relatos pungentes acontece numa missiva (25/01/1962) de Luís de Sttau Monteiro, quando ocupava a sala 1 da cadeia de Aljube. É uma das mais belas cartas de amor escritas da prisão para os seus familiares. Vale a pena partilhar este verdadeiro hino à esperança e a Abril. Oiçamo-lo: ” Meus queridos June e, mais secundariamente, Carol, Ana Lúcia, Diogo e Tomicas:

Nenhum dos meus me sai um só momento do pensamento. Vivo numa aflição com receio de que estejam preocupados por minha causa, e, devo dizer-lhes, não têm, para isso, a menor razão. Estou magnificamente instalado, numa sala enorme com três janelas grandes que dão para o rio, do qual vejo uma grande parte e ainda veria mais se não fossem o telhado e as duas torres da Sé. Vem até mim, permanentemente os ruídos todos da rua: o ruído dos automóveis, dos eléctricos, das pessoas que passam e, até, dos sinos da Sé, que insistem em dar horas, noite e dia, com uma indiferença total pelo sono dos habitantes do bairro. O telhado da Sé está cheio de pombos que voam de um lado para o outro e que passam o dia a beijar-se. Um dos meus grandes divertimentos consiste, precisamente, em dar migalhas de pão aos pombos e eles estão tão treinados que mal me vêem à janela, vêm a voar, ter comigo. O meu favorito é um pombo lindo, todo castanho, que se faz caro e que nem sempre mostra grande interesse pelas minhas migalhas. Hoje fui ao enfermeiro, dia sim, dia não, vou ao barbeiro fazer a barba. O barbeiro é um tipo simpático e falador que, possivelmente porque não pode falar comigo, tagarela sem cessar, a respeito de coisas do seu ofício. Quando sair daqui vou técnico a respeito de barbear e cabelo – posso, mesmo, montar uma barbearia.

Quero que a Carol, a Ana Lúcia e o Diogo (não falo do Tomicas porque é ainda muito pequeno para pensar em mim) brinquem muito enquanto eu não for para casa. Quero, principalmente, que brinquem muito ao sol, de chapéu nas cabeças. Quando eu chegar a casa levo um cartucho de rebuçados e dou um rebuçado (dos grandes) a cada um por cada vez que tiverem rido. A Carol, por ser a mais velha, tem de ajudar a mãe em tudo e tem de a obrigar a descansar muito. Digam à Rosália que tenho muitas saudades dela e dos cozinhados que ela fazia… Amanhã escrevo outra vez. Um beijo muito grande para todos e uma palmada no rabo do Tomicas se ele estiver a chorar quando receberem esta carta do pai mais que amigo.

Pai

June: esta carta é colectiva porque hoje há muita azáfama.

Um beijo enorme do

Sttau.”

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