SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 06:35

O Monumento aos Heróis de Diu

Frequentemente o transeunte citadino é confrontado com um singular monumento que se ergue nas imediações do antigo mercado semanal de Torres Novas, na denominada Rotunda Heróis de Diu, junto às instalações da rodoviária. Esta construção é, em Portugal, um caso único. Conhecem-se edificações similares existentes nas ex-províncias portuguesas, como: Cabo Verde, Cidade da Praia; Guiné Bissau, Cacheu e Farim; Timor Leste, Díli, etc. O empreendimento de tão esbelta obra de arquitectura encontra-se ligado às comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique. Daí ter recebido o nome de“ Padrão Henriquino”. Mas o seu significado – no caso do padrão torrejano – não se esgota no enaltecimento das acções levadas a cabo pelos portugueses na época dos Descobrimentos ou na apologia da ideologia do Estado Novo. A homenagem implícita, vai para além destas duas vertentes. Inscreve-se na glorificação dos actos de heroísmo protagonizados pelos ilustres torrejanos, Daniel Arnide, Francisco Gouveia, Miguel Arnide e D. Pedro de Almeida, nos primeiros e segundo cercos de Diu, ocorridos no século XVI, na antiga povoação da Índia portuguesa. Na parte da frente do monumento encontramos uma pedra da lendária fortaleza de Diu, oferecida alguns anos antes da sua construção, em 1954.

A edificação de um monumento que perpetuasse a memória dos feitos dos nossos heróis de Diu, andava, há muito tempo, nas congeminações de alguns ilustres torrejanos. Referimo-nos a Artur Gonçalves, Gustavo Bivar Pinto Lopes e ao Dr. Carlos de Azevedo Mendes. O historiador torrejano, fala do assunto no jornal “O Almonda“, de 4 de Fevereiro de 1923. A sua voz encontrou um grande apoio na acção dos dois representantes da vila, que terão incumbido o insigne artista torrejano, Carlos Reis, na tarefa de desenhar o referido projecto, para a sua posterior colocação na avenida. Este plano, que não chegou a concretizar-se, encontra-se expresso nas linhas de uma carta dirigida pelo pintor ao Dr. Carlos de Azevedo Mendes, no dia 9 de Junho de 1937, dois anos antes de 1939, data em que, segundo alguns artigos de referência, as actas da Câmara Municipal de Torres Novas abordam pela primeira vez o assunto: “ Mas consegui dizer que na 2ª feira o Colaço e eu iremos até Torres Novas, conforme combinámos (…) Pedi também ao Gustavo que combinasse com o meu amigo o que lhe surgisse sobre os azulejos e sobre o monumentozinho na avenida. Ele nos transmitirá tudo e tudo correrá pelo melhor.” Como pequeno esclarecimento, os azulejos referidos na missiva foram executados pelo pintor Jorge Colaço e encontram-se na parede da subida que vai em direcção ao Castelo, próximo da Praça 5 de Outubro. São a homenagem do povo torrejano ao seu mais célebre alcaide, Gil Pais.

Foi preciso esperar pela década de sessenta para que a obra, em louvor dos heróis torrejanos, se concretizasse. Aberto um concurso pela Comissão Ultramarina (destinado a erigir um “Padrão Comemorativo” nas diversas províncias ultramarinas), coube ao escultor e pintor conimbricense, Severo Portela Júnior, vencê-lo com o seu projecto-modelo intitulado “Ceuta”. O grupo Pró-Torres Novas viu esta consagração como o momento oportuno para aglutinar as vontades e paixões dos torrejanos, em prol da recolha de fundos, com vista a custear a edificação de um Padrão Henriquino, na nossa vila. A mobilização geral deu os seus frutos. O monumento foi erigido, em Novembro de 1960, no antigo Largo das Duas Igrejas (actual Largo Heróis de Diu), antes de rumar em 2003, para as imediações da rodoviária onde, hoje, está situado.

Quem observa a escultura torrejana, feita em pedra, calcário moleano, encontra algumas semelhanças com o padrão dos Descobrimentos, construído em Belém, da autoria de Cottineli Telmo e Leopoldo de Almeida. Os elementos simbólicos ligados ao período áureo da História dos Descobrimentos portugueses são bem visíveis nas duas obras artísticas. Também uma e outra adoptam o figurino da caravela, mais perceptível no monumento lisboeta.

Mas quem foi o artista a quem Torres Novas deve um dos seus monumentos mais originais e que ideias estéticas defendia? Nascido em Coimbra, no ano de 1898, Severo Portela Júnior, ainda jovem, mudou-se para Lisboa, onde estudou escultura na Escola de Belas Artes. Nesta instituição de ensino conseguiu apresentar alguns trabalhos com algum mérito. Anos mais tarde, sai de Lisboa e passa a residir na vila de Almodôvar. Fortes laços com esta terra do Baixo Alentejo irão marcar a sua existência. Quem a visitar dará conta que o museu ostenta o seu nome. Foi também esta vila o lugar escolhido para o descanso dos restos mortais de Severo Portela Júnior.

A sua paleta de artista é bastante versátil. Pintou paisagens, cenas ligadas aos usos e costumes, pintura religiosa e histórica, naturezas-mortas, murais e tudo o que achasse indicado para mostrar a sua arte. Em 1930, vemo-lo novamente em Lisboa, ano em que ganharia o prémio Rocha Cabral, com a obra “ Músicos de Aldeia”. No ano seguinte o seu quadro “1860” valeu-lhe um prémio. Na actividade de escultor, como salientámos atrás, recebeu o primeiro prémio do concurso atribuído ao “Padrão Henriquino”, no valor pecuniário de 25 mil escudos (125 euros na moeda corrente).

Na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, podemos apreciar um belo mural da sua lavra, a “Alegoria do Génio Português, 1951” e na Faculdade de Medicina, da mesma cidade, a obra” Evolução da Medicina”, realizada no ano de 1956. No primeiro mural de Severo Portela perpassa o génio de um povo com os seus heróis e santos. Um “retábulo” com profundas reminiscências de um outro feito por um pintor a quem, Portela Júnior, devotava uma enorme admiração, o mestre Nuno Gonçalves. Assim o afirma nas linhas finais de uma carta endereçada, em 8 de Julho de 1974, ao seu afilhado, o pintor Varela Aldemira: “ Agora na véspera de fazer 76 anos volto-me a pintar quadritos insignificantes, no tamanho, nos assuntos (já velhos) e na matriz e assim vai passando o tempo. Nem sempre abro os jornais porque eu e os da nossa escola somos os fascistas da pintura. (…) Pensam também em reunir obras dos artistas de maior nomeada, para mostrar a miséria dos últimos 50 anos da arte portuguesa. Realmente têm razão, nós só fomos grandes no tempo do Gonçalves. De resto vulgares.”

Na mesma carta, vemos afirmadas as discutíveis ideias estéticas do pintor, para quem nem todo o tipo de arte responde às inquietações do homem: “ A arte renova-se em revoluções? Renova-se não, transforma-se, modifica-se. A arte é sempre um produto do meio.

Dou razão aos russos quando dizem que o abstracto é um produto do capitalismo judaico. Como pode o abstracto representar o povo no seu sofrimento ou na sua grandeza heróica?

O abstratismo é uma expressão literária feita a pincel. Mas caso curioso tenho visto a explicação filosófica, literária e técnica ocupar espaços em jornais equivalentes à superfície pintada.

Mas apesar de tudo tenho de me render à evidência e confessar a minha ignorância.” Palavras de um homem simples face ao estranho e complexo mundo da arte que, na altura, dominava os cânones estéticos.

A grandeza de artista que há em Portela Júnior não o inibe de confessar ao afilhado, o lugar importante que este desempenhou na sua formação: ” Tenho porém pena de não poder acompanhar as tuas considerações sobre o pentagrama da divina proporção e a simplificação da medida áurea, porque como sabes eu sou um ignorante, que passou metade da sua existência num meio rústico onde a natureza e os animais eram a paisagem de todos os dias.

A tua amizade e convivência é que foram a chama que incendiou a minha tendência para a divina arte de pintar, e que afinal não resultou nas labaredas que tu esperavas.” (Fev. 1974)

Não partilhamos este desabafo de Portela Júnior ao alegar a sua “menoridade artística”. Nele coabitaram a alma e o génio do verdadeiro artista. A beleza geométrica do traço e as cores que incendeiam as figuras nas suas belíssimas telas e murais, despertam-nos para o que há de divino nos seres e natureza.

As obras de Severo Portela Júnior serão sempre parte integrante do imaginário colectivo português e, também, dos torrejanos, a quem lhes foi dado o privilégio de fruírem uma das suas peças que enfileira nas emblemáticas jóias da arquitectura nacional.

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