SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 22:00

“Ao pintor das árvores e da luz” (parte 2)

Em Torres Novas, Carlos Reis estabeleceu fortes laços de amizade, especialmente, com o seu colega de infância, Gustavo Bivar Pinto Lopes. Uma afeição que se prolongou ao longo da vida, apesar de os dois amigos terem seguido caminhos e paragens diferentes.

A 19 de Abril de 1933, no dia em que foi homenageado pelos seus 70 anos de vida, proclama este belo elogio à amizade e ao amor pela vila:

“Tive a felicidade de nascer nesta carinhosa terra, donde bem novo me afastei, sem nunca dela ter afastado o meu pensamento e a minha saudade, sem nunca ter esquecido as amizades que nasceram com a infância, que se robusteceram com a mocidade, sem que o poder destruidor das grandes ausências fizesse nascer em mim o muito vulgar, o muito humano esquecimento (…). Porque não são os propriamente calculados interesses materiais da nossa vida que nos prendem às pessoas e coisas (…) mas sim o profundo sentimento de gratidão pelas provas de tão carinhosa estima (…), e também porque neste tão querido torrão não só viveram e perdi pessoas queridas da família, como venho encontrar e abraçar alguns companheiros queridos, que desde a infância eu acompanho em espírito, amigos leais que a mocidade mais estreitou ao meu coração, e que tenho a ventura de vir encontrar (…).

Obrigado querido Gustavo.

Saúdo-te, e em ti saúdo com enternecimento os amigos do nosso tempo.”

A par das suas cartas, estas linhas reforçam uma outra faceta de Carlos Reis: a de um exímio relojoeiro de almas. Na sua prosa, límpida e torrencial, os recônditos e complexos abismos do coração humano ganham contornos bem definidos, à medida que reflexões e sentimentos são substituídos pelas palavras escritas. Há páginas, na sua profícua correspondência, que poderiam ter sido escritas por um dos nossos proeminentes escritores.

Outra das qualidades artísticas, presente em Carlos Reis, foi a enorme paixão que devotava à música. Na sua casa, os instrumentos musicais, nomeadamente o piano, eram uma presença incontornável. O seu filho, João Reis, destacou-se como um bom praticante, facto que podemos depreender através das linhas de uma carta dirigida ao seu amigo José Leite: “Muito obrigado a si e a sua filha. Junto lhe envio a música no caderno, mas a que o João vai tocar é a Ária de Bach .”

Muitos desconhecem que o ilustre mestre da pintura exercitou também o canto na juventude. A prova encontra-se num desabafo feito a Adelaide Cruz, mãe da sua discípula, a pintora Maria Adelaide Lima Cruz: “ Fui, na verdade, um dos mais apaixonados cultores do canto nesse tempo, mas sem dó porque era barítono e sem piedade por que era um desalmado.

O meu entusiasmo, a minha paixão, a ânsia doida de cantar era tal, que eu era o primeiro a chegar e o último a sair.” Mas, diversas imprudências, fizeram com que perdesse a voz, levando-o a abandonar a actividade.

No seu périplo pela vida, Carlos Reis elegeu a Lousã como local para residir por largos períodos de tempo. Uma escolha intimamente ligada às condições paisagísticas da vila. Com esta terra desenvolveu uma relação de atracção / repulsa.

Numa primeira fase, elogia as montanhas e belezas naturais da terra, propensas para o despertar da alma de artista. Em 14 de Agosto de 1918, a José Leite, afirma o seguinte: “ A situação é linda e cada vez acho mais encanto e mais motivos encontramos nesta terra para pintores da montanha e arvoredo.

Breve começarei quadros importantes. (…) Venha ver a encosta da «Lagartixa» que quando tiver uma casinha encostada ao atelier será um lindo recanto para passar em sossego uns meses de verão, e se alcanço água na mina que actualmente se está limpando, dentro de alguns anos, e com a tal casinha é coisa para se lhe tirar o chapéu.

Toda a minha mágoa é restar-me já muita pouca vida para a gozar, mas consola-me a ideia de que meus filhos com o amor que já têm da sua futura casa, a conservarão por amor de mim, e me verão em espírito vaguear por onde agora este cadáver anda sempre a tropeçar em barrotes, em pedras, em panelas de cal, caindo aqui, levantando-se acolá mas sempre com o dedo espetado a mandar o colossal formigueiro de pedreiros, carpinteiros, mineiros, caboqueiros, cujo número não é inferior a…quatro!”

Nos últimos anos de vida, vê-a como um fado; como podemos constatar numa carta endereçada, no dia 4 de Setembro de 1939, a Adelaide Lima Cruz: “Sinto que já me não devia afastar-me dos meus hábitos de Lisboa onde sempre vive o meu espírito, embora as belezas desta região me atraiam os meus olhos de pintor. Quer assim o destino que tão rude foi para mim e já é bem tarde para remediar, completamente. E bem raros são os momentos de felicidade.”

O tormento da infelicidade abateu-se de forma agreste no raiar da sua existência, confirmando o presságio “inscrito” no local seu nascimento. Atacado pela surdez, torna-se um pouco estranho no trato, em virtude da sua incapacidade de conversar com as pessoas (carta escrita a Carlos Mendes em 16-06-1937). Neste mesmo ano, quando se encontrava a desenhar o esboço para a construção, em Torres Novas, do monumento aos heróis torrejanos do segundo cerco de Diu (projecto abandonado), perdeu o seu olho direito, em resultado das fortes dores acometidas. Também alguns dos seus familiares chegados vêm a vida chegar ao fim. Mas continua imerso no seu trabalho até à exaustão, contemplando a sua viagem pelo mundo sob o ponto de vista de um estóico, como escreve a Bivar Pinto Lopes: “ Caro Gustavo; Eu e os meus, cá estamos na Lousã, não sendo famosa a saúde.

São safanões que a besta da vida vai dando na nossa existência até que um parta a arreata que a ela nos prende.”

Aqui fica a nossa singela homenagem ao pintor pelos seus 150 anos de nascimento. Onde quer que esteja, são para ele estas fracas linhas. Sinal de gratidão pela dádiva de luz e beleza com que inundou o mundo dos homens.

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