SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 03:03

“Ao pintor das árvores e da luz” (parte 1)

Estamos no mês em que se comemoram os cento e cinquenta anos do nascimento de  uma das figuras mais queridas da nossa terra. Aconteceu no longínquo dia 21 de Fevereiro de 1863. Nesta data, Carlos Reis fez a sua entrada na misteriosa tela da vida, encetando, depois, uma carreira artística que o levará a alcançar enormes êxitos e honrarias.  Hoje é lembrado no mundo da arte como o exímio mestre da cor e da inconfundível e claríssima luz.

Dotado de uma enorme sensibilidade poética e paleta prodigiosa, soube captar nas suas pinturas a complexa alma dos seres e fixar – na harmonia e voluptuosidade das cores, onde se destacam os brancos translúcidos – os pedaços de vida que rompem da natureza, cheios de ternura e alegria. Ao longo de várias décadas, construiu uma obra que o coloca entre os maiores paisagistas da nossa pintura nacional. Fonte de aprendizagem e reflexão estética para uma enorme plêiade de artistas e críticos.

Mas, à semelhança de um artigo anteriormente escrito, não é esta a faceta que vamos tratar do ilustre torrejano. A análise levará o  nosso olhar a incidir sobre o universo íntimo e pessoal de Carlos Reis, para  tentar desvendá-lo através dos pequenos fragmentos  arrancados à sua correspondência epistolar e memórias. Locais onde a alma do homem comum derrama as paixões,  saudades e sonhos.

Comecemos a caminhada – em direcção ao outro lado do espelho –  com  um breve apontamento sobre as  raízes do ilustre conterrâneo : “ Nasci em Torres Novas em 1863.

Filho e neto de médicos pertenço a uma família onde existiram e existem médicos, oficiais do exército e marinha, advogados, engenheiros, lavradores de terras na posse da família talvez há séculos.

Não há artistas na família, eu sou o único”.  Uma nobre arte que viria a ser trilhada pelos seus filhos. Um deles, João Reis, destacou-se como um emérito pintor.

Foi para a terra onde nasceu, que Carlos Reis, no entardecer da vida, escreveu algumas das suas notas pessoais: “ Torres Novas é aquela vilazinha que fica ao norte de Santarém e a umas duas léguas da margem direita do Tejo onde vai desaguar o Almonda depois de serpentear desde a sua nascente na Serra de Aire, por entre montes suaves cobertos de extensos figueirais, de vinhas soberbas e olivedos dum verde cinzento triste, que ao cair da tarde oprimem a nossa alma como se a vida não pudesse voltar a ter nem claridade nem esperança”. Esta melancolia da paisagem torrejana e da serra que se avista da sua antiga casa  marcará, indelevelmente, o espírito do pintor ao longo da existência.

Também o lugar onde nasceu funcionou como um presságio, um sinal da sua árdua vida, pois simboliza uma cruz,  resultante do encontro das linhas imaginárias feitas a partir de três igrejas, uma delas já desaparecida: “ Quem tivesse a curiosidade de traçar uma linha recta partindo da igreja de São Tiago de Torres Novas, e outra da igreja da Misericórdia até à igreja dos Anjos, teria desenhado uma perfeita cruz e no centro dessa cruz encontraria a casa onde nasci.

Este facto tem-me dado que pensar pois que a minha vida tem sido a de um verdadeiro mouro a quem São Tiago parece confundir ainda hoje com um dos muitos que perseguiu à cutilada sem descanso nem momento de tréguas (…)”.

Contudo, a vila e as gentes onde nasceu mereceram-lhe sempre o reconhecimento.Numa carta endereçada ao amigo Carlos de Azevedo Mendes, em vinte de Abril de 1933, tece rasgados elogios ao modo como foi recebido na sua terra natal: “ A maneira nobilíssima como a minha querida terra me recebeu no dia 19, fez-me sentir verdadeiro orgulho por ser um dos seus filhos. Eu peço querido srº Dr. a grande fineza de, no seu distintíssimo jornal “ O Almonda” faça saber que nunca mais esquecerei o dia 19: que de todo o coração agradeço à ilustre Câmara Municipal, aos ilustres colaboradores do “Almonda” e, enfim, ao generoso povo torrejano, as suas bondosas manifestações que profusamente me comoveram ” .

Numa carta anterior, escrita em três de Junho de 1925, Carlos Reis agradece as elogiosas missivas endereçadas pelos patrícios e o lugar importante que ocuparam no seu coração: “ Dada a pouca vocação que tenho para escrever receio e desconfio que quando for o meu centenário responda à última carta agora recebida.

Mas para Torres, não espero por esse dia, não quero que se confundam os meus agradecimentos com sapatos de defunto”.

Deixemos, aqui, mais alguns esclarecedores parágrafos, do enorme carinho e lembranças que Carlos Reis nutria pela sua terra e amigos: “ Eu só posso dizer-lhe que me sinto incapaz de lhe dizer o que trouxe anteontem de Torres Novas no meu coração repleto de gratidão e encanto (…).

Foi um dia dos muitos raros da minha vida, porque tudo e todos que eu abracei comoveram para que esse fosse dos poucos que tenho gozado na velhice e esse bem consolador devo-o à minha querida terra”(16-06-1937).

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