SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 16:01

Homens sem alma

Vivemos numa época em que as elites económicas e políticas são portadoras de um duvidoso quadro de referências morais. Exemplo disso, os esquemas mafiosos e a especulação irresponsável por elas criadas, com consequências desastrosas para milhões de habitantes. Embriagadas pelos jogos financeiros – na mira de alcançar lucros desmedidos – vão gradualmente provocando falências e destruindo economias estáveis, pondo em perigo as instituições civis, sem que revelem a mínima réstia de pudor. Um trajecto hediondo, servido por uma podridão de afectos e sentimentos em relação aos seus desprotegidos semelhantes. Olham-nos como simples bestas de carga, capazes de aguentar a mais dura austeridade.

Há pouco tempo, os jornais diários deram conta de um dislate desta natureza, protagonizado por um dos grandes líderes financeiros do país. As suas palavras vieram apenas dar razão ao provérbio, que afirma: “ter muito dinheiro, muitas vezes, não é sinónimo de possuir bom senso e riqueza de espírito”. A insensatez, característica de alguns líderes, estende-se também ao sector bancário, que nos dias de hoje é pouco recomendável e que, ao longo da história, foi bastante criticado, pelo facto de o seu objectivo se centrar meramente na usura e obtenção de lucros.

Já na Grécia antiga, Aristóteles falava na sua prática como sendo detestável “ porque nela o ganho resulta do dinheiro propriamente dito e não na finalidade para a qual o dinheiro foi instituído” sendo “o mais contrário à natureza” (Política, 1258 b). Para o filósofo grego a moeda não se reproduz. O mesmo não acontece com os seres vivos, sendo por essa razão duas realidades opostas. Lucrar com empréstimo de dinheiro ou viver exclusivamente dos lucros das acções é imoral. Também a doutrina cristã vê a obtenção do lucro através da usura como pecado, designando-o por “ remuneração do ócio”.

Ao socorrermos da autoridade moral de Aristóteles e do catolicismo, apenas pretendemos mostrar que a actividade financeira vocacionada simplesmente para o lucro, é um exercício pouco honroso e indigno. Por essa razão, ao serem divulgados pela comunicação social os ganhos fabulosos dos bancos, conseguidos em torno da dívida pública portuguesa, ficámos bastante incomodados. Pois sabemos que foi alcançado à custa da miséria e do desespero que se abateram sobre a sociedade portuguesa, onde um grande número de famílias perdeu os seus empregos, as suas casas, e onde muitos deixaram de viver em condições dignas.

Em vez da alta sumidade financeira afirmar: “ se os sem-abrigo aguentam por que é que nós não aguentamos?”, faria melhor se utilizasse os dinheiros recebidos indevidamente, na diminuição da fome e da pobreza existente.

Fechado no seu gabinete e especulando no campo da roleta de abstracções e gráficos, o decisor financeiro perdeu todo o sentido da realidade. Omitiu um princípio basilar muito conhecido que diz: “não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti.” Exigir para os outros um iníquo programa de austeridade no momento em que eram divulgados os milhões ganhos pelo seu banco é, no mínimo, revelador de um enorme desprezo e insensibilidade para com aqueles que ganham honestamente o seu magro salário no exercício de uma profissão produtiva e que sofrem uma pesada carga fiscal em virtude dos buracos e derrapagens financeiras criminosamente perpetrados pela acção de alguns reputados gestores bancários.

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