SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 21:12

Nos passos de Pedro e Inês (parte 2)

Fragmentos ligados à memória da extinta construção real, onde estiveram Pedro e Inês, atravessaram gerações. A tradição popular apelidou o local com o nome de Paço. Em Abril de 1906, data da pesquisa, Artur Gonçalves refere a existência de “um laranjal” em lugar do palácio e o facto de “o resto da pitoresca cerca” ter sido substituída por “uma vinha”. Destaca também como “verdadeira a afirmação” que consta na obra “de Pinho Leal a respeito de duas braceletes ou argolas de ouro ali encontradas (há mais de 60 anos) quando se procedia a umas escavações e que estupidamente foram vendidas a um ourives de Lisboa, para derreter, sem que se pretendesse investigar do seu valor histórico.”

Na carta, divulga uma pretensa inscrição que, diz-se, existiu num banco “junto ao regato que corre no extremo da propriedade”. Afirmava o seguinte:

“ … gentil e loira e branca e bela

Uma flor de Castela

Que no céu português se volveu astro

Costumava esperar o amado príncipe…”

Na tentativa de obter dados precisos sobre a “régia residência”, Artur Gonçalves empreendeu uma detalhada consulta dos registos existentes no arquivo paroquial e aos que se encontravam nas mãos de particulares. Mas o tempo e o desleixo dos homens apagaram as marcas históricas do edifício, restando em seu lugar, a lenda e a fantasia. Na imaginação do povo o desaparecido palácio atingia proporções grandiosas.

O trabalho desenvolvido por Artur Gonçalves, com vista a recuperar os passos percorridos pelos dois apaixonados, não se restringiu apenas ao citado Paço. Fala, igualmente, da existência de uma ponte que leva o nome do monarca: “ Saindo de Moledo em direcção a Lisboa pela antiga estrada que passava junto ao Paço de Moledo, encontra-se na freguesia de S. Lourenço dos Francos, concelho de Lourinhã, a ponte denominada de D. Pedro.

Fica a cerca de 500 metros do lugar da Ribeira dos Palheiros, junto do Casal das Quintas, sobre a ribeira, denominada da Lourinhã.

É de um arco único de volta abatida, construída de tijolo, tendo hoje somente 1,50 m de largura aproximadamente. (…) a ponte em completo estado de ruína, em breve deixará de servir, pelo abandono a que foi votada.

Conta a tradição e o nome por que é conhecida (…), que foi mandada construir pelo enamorado D. Pedro quando vinha da corte ao Paço de Moledo a enxugar com beijos, as lágrimas de saudade da infeliz rival da infanta D. Constança”, a que chamaram “colo de garça”, em homenagem à sua graciosidade e beleza.

Prestadas as informações, Artur Gonçalves desabafa ao lastimar “ não poder dá-las mais completas pois [salienta] que neste concelho tem sido grande o abandono criminoso a que foram votados todos os edifícios que podiam ter algum valor histórico, como os dois citados.”

E com estas últimas palavras damos por findo este pequeno excurso, onde procurámos divulgar o contributo do insigne torrejano à volta dos amores entre Pedro e Inês. O casal enamorado mais fascinante da nossa história nacional. Aquele, a quem, dois séculos mais tarde, Camões dedicou alguns dos seus mais belos poemas; no Canto III, da grandiloquente obra-pátria, “Os Lusíadas”.

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