SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 06:39

O enigma da folha desaparecida

Há trabalhos de investigação que desencadeiam em nós um enorme carinho. Obras que nos espantam pelo espírito de entrega e amor à verdade histórica. A nossa admiração pelo autor e pela obra aumentam à medida que vamos dando conta do aturado esforço de pesquisa e dificuldades por que passou. Um exemplo que gostaríamos de assinalar neste artigo, prende-se com o livro “Torrejanos Ilustres” de Artur Gonçalves. Obra digna de um dos trabalhos de Hércules, como confessa o historiador na introdução, ao apontar a escassez documentos existentes na vila: “(…) a circunstância de em Torres Novas não existir biblioteca pública ou particular, nem mesmo arquivo municipal, onde colher elementos, mas só uns minguados e dispersos documentos de duas famílias torrejanas, que amavelmente me foram facultados, pelo que houve de dificultosamente procurar fora a mór parte dos dados em que se baseia esta obra ”. Um livro a pouco meses de completar oitenta anos sobre a decisão final da sua publicação (a 6 de Maio de 1933), para chegar depois ao contacto com o público-leitor, no ano de 1934. Todos a reconhecem como sendo a edição mais aprofundada e conseguida acerca das figuras ilustres de Torres Novas.

O seu empreendimento conta-se em poucas palavras: Artur Gonçalves – como é do conhecimento geral – não era torrejano por nascimento. Natural de Soure, veio para Torres Novas desempenhar as funções de chefe de secretaria da Câmara Municipal, no ano de 1914. Aqui, desenvolveu um grande apreço pela terra e pelas suas gentes, de que resultaram várias obras sobre a história local. Uma falha colmatada pela dedicação e pelo abnegado espírito de investigador presente em Artur Gonçalves.

No “Jornal Torrejano”, por ele fundado a 26 de Dezembro de 1915, passados dois anos, enceta a publicação da biografia do ilustre torrejano António César de Vasconcelos Correia (28/10/17), a que se seguiram outras figuras eminentes da nossa terra. Extinto o jornal, continua o seu projecto de dar a conhecer os episódios ligados à vida dos ilustres antepassados torrejanos no periódico “O Almonda”, logo no primeiro número, dia 24 de Novembro de 1918. O interesse despertado pelas biografias, levou a que um grupo de amigos apresentasse em Sessão da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, no dia 27 de Maio de 1927, uma proposta para que a edilidade tomasse a seu cargo a publicação, agora em livro, sob o título “Torrejanos Ilustres”. Decorridos seis anos (emenda escrita a lápis por Gustavo Pinto Lopes no livro que foi seu!), e não sete anos, como é assinalado na introdução, a iniciativa encontrou um importante promotor na mão do presidente da Comissão Administrativa da Câmara, Bivar Pinto Lopes. Um pormenor vincado na expressiva dedicatória de Artur Gonçalves ao afirmar: “ Ao Exmo. Srº Gustavo Bivar Pinto Lopes (…) que tanto se interessou pela publicação dos Torrejanos Ilustres”. Foi o seu primeiro trabalho de grande envergadura dedicado a Torres Novas, onde descreve quase quatro centenas de biografias e dez árvores genealógicas. Artur Gonçalves teve o enorme cuidado de separar os biografados pelas diferentes áreas em que se distinguiram: alcaides, poetas, cientistas, humanistas, escritores, médicos, etc. A lista presente no livro é imensa e exaustiva, abrangendo os períodos entre o século XII e o século XX. O insigne historiador sentiu que estava a construir uma obra aberta, pois na introdução não descarta a hipótese de alguém poder acrescentar ou corrigir alguns dos seus dados. Mas, quanto a nós, quem o fizer deverá assumir uma atitude de humildade e respeito pelo trabalho desenvolvido por Artur Gonçalves.

O próprio autor deu conta de alguns lapsos. Nas folhas finais da obra encontramos uma corrigenda onde somos alertados para os erros verificados em algumas linhas das páginas do livro, com a indicação das devidas alterações.

Mas na feitura do livro paira um acontecimento deveras estranho! Tanto na primeira edição da obra, impressa em Barcelos, nas Oficinas da Companhia Editora do Minho, no dia seis de Outubro de 1934, como na sua segunda impressão, realizada nas oficinas da Gráfica Almondina, em 1993, não há qualquer referência a uma folha que devia constar nas edições. Trata-se do suplemento às Corrigenda, que julgamos, resultou de um novo olhar sobre a obra, feito por Artur Gonçalves.

No livro que pertenceu a Gustavo Bivar Pinto Lopes, demos conta da existência da anódina folha, que discretamente se escondia no meio das centenas de páginas que compõem a obra. Questionamos se, alguma vez, ocorreu a divulgação do suplemento, pois em todas as primeiras edições consultadas, não vislumbrámos a referida folha. Nem mesmo no livro pertencente ao espólio do presidente da Câmara, Dr. Carlos de Azevedo Mendes. Esta corrigenda contém novos dados sobre algumas passagens da obra, e faz a correcção de pequenas gralhas.

Ao alertarmos para este caso, pretendemos, apenas, repor uma pequena peça em falta, no inacabado e complexo puzzle que representa este livro de Artur Gonçalves, para que numa futura edição a folha seja incluído. Talvez em 2033, no ano do seu centenário. Seria uma justa homenagem ao distinto investigador a quem Torres Novas deve uma parte da sua alma.

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