SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 01:31

As Raízes da Intolerância (parte dois)

A Inquisição revelou-se uma máquina sombria que desferiu um rude golpe nas frágeis virtudes que ainda vigoravam na sociedade. Extasiados pela volúpia de um poder absoluto e iníquo, os representantes judiciais humilhavam as suas vítimas, sujeitando-as a torturas infames, a processos sem hipóteses de defesa e a um encarceramento que podia estender-se por vários anos, ou toda uma vida, sem que a culpa fosse seriamente justificada. Os réus, presos em condições sub-humanas e sujeitos a intermináveis maus-tratos, questionavam-se sobre o real motivo da sua condenação.

Quando a dignidade da pessoa humana é atropelada pela crueldade e cupidez daqueles a quem delegámos a nossa defesa, os maiores males abatem-se irremediavelmente sobre a alma colectiva, projectando-a para níveis inauditos de negritude. Durante o reinado de D. João III, e por mais de duzentos anos, um clima de suspeição generalizado irrompeu em todos os estratos da sociedade, onde as perseguições, a infâmia e a delação eram estimuladas e vistas como virtudes. Os processos inquisitoriais desabaram em catadupa sobre os cristãos-novos, muitos deles acusados pela prática de judaísmo – uma das infracções mais graves. Perseguidos por razões económicas e inveja (os judeus eram a porção mais industriosa e rica da sociedade), a delação tinha como principal finalidade o vexame e o confisco dos seus bens. A coroa, nada fazia para travar a ordem arbitrária instituída, já que era o principal beneficiário pelo arresto das posses dos réus.

Nestes tempos sombrios, ninguém estava livre do opróbrio de uma acusação. Há registos de cristãos-velhos, mulheres, adolescentes e sacerdotes, que passaram pelo Tribunal do Santo Ofício, denunciados infundadamente por um familiar, amigo ou vizinho. Motivos perversos como a inimizade, a vingança e os conflitos bastavam para desgraçar a vida de inocentes.

Também a comunidade torrejana não escapou aos braços inumanos da Inquisição e dos delactores. Os processos existentes, ligados ao Tribunal do Santo Ofício de Lisboa, são imensos, principalmente tendo como réus, cristãos-novos. Alguns deles, obrigados a passarem muitos anos na prisão até ao dia da sentença. Temos a condenação do torrejano João Fernandes Soares, de 32 anos, com a profissão de letrado. Acusado de judaísmo, esteve onze anos nos calabouços do Santo Ofício até conhecer o auto de fé (de 29/03/1624 a 20/05/1635), que resultou no confisco dos seus bens. Encontrámos outros processos referentes ao ano de trinta e cinco em que as penas aplicadas, aos infractores da vila de Torres Novas, foram a apreensão dos bens. São os casos de Simão Rodrigues (sirgueiro), Antónia Nogueira, António Lopes (lavrador), João Garcia (alfaiate), João Balieiro (fazendeiro). Todos julgados na mesma data, no dia vinte de Maio de mil seiscentos e trinta e cinco. Um ano antes, ao cristão-novo João Gago (pantufeiro) foi-lhe aplicada uma pena da mesma natureza e excomunhão maior. Em 1637, Diogo Freire, cristão-novo, com a tenra idade de 14 anos, sofreu também o arresto de bens, sob a culpa de judaísmo.

Nem os idosos escaparam às garras do nefando tribunal. Acusado por relapsia em judaísmo (a primeira vez, aconteceu com a idade de 80 anos), em 1640, Domingos de Évora, natural da vila de Torres Novas, aos 84 anos, vê ser-lhe aplicada a pena de cárcere e hábito penitencial perpétuo sem remissão. Foi igualmente açoitado nas ruas públicas de Lisboa e condenado ao degredo por seis anos nas galés. Mas o elemento mais idoso objecto de acusação (em 15/02/1556) foi a cristã-nova, Catarina Lopes, residente em Torres Novas. O registo aponta para a provecta idade de cem anos (?).

Até elementos do clero têm os seus nomes nas listas do Tribunal da Inquisição. António Bivar, padre, beneficiado na igreja de Santiago da vila torrejana, foi acusado de proposições heréticas. Demos igualmente conta de um processo relativo ao prior da igreja de São Pedro, João Nunes. As acusações feitas contra os prelados são diversas: Frei Eliseo, do Mosteiro de Santo António, carregou a culpa de ter estabelecido um pacto com o demónio. Frei José de Santa Rita, religioso arrábido, morador no Convento do Barro em Torres Novas, foi acusado por ler livros proibidos.

Nos processos consultados salta-nos à memória o caso da ré Maria Nogueira. Acusada de perjúrio, faleceu nos cárceres em 17/11/ 1639, a dois dias de completar os seis meses de prisão. Há registos de vários membros de uma família encarcerados, como o da cristã-nova, Isabel Soares, natural de Torres Novas. Na mesma altura estavam presas as irmãs, Maria Soares e Genebra Soares, os sobrinhos Bartolomeu Soares e Maria Trindade e o primo Álvaro Luís.

Hoje, estes episódios geram em nós um sentimento de repulsa e também de algum receio. Fazem-nos pensar nas consequências que os cidadãos poderiam sofrer se colocássemos um poder discricionário, com a mesma irresponsabilidade moral, agora nas mãos de determinados tecnocratas e políticos, sustentados por um mercado económico e financeiro sugador de almas, da esperança e dignidade das pessoas e, para os quais, a Constituição e os seres humanos concretos, mais não são do que números ou insignificâncias colaterais.

Mas tenhamos fé de que as regras elementares do bom-senso e da justiça habitam no coração dos homens, principalmente nos decisores políticos e financeiros.

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