SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 14:04

Nos cem anos da visita do 6º Presidente da República a Torres Novas (parte 1)

Vivemos num tempo em que Portugal caminha no sentido de se tornar refém de poderes exteriores. A ameaça da perda de soberania é, nos dias de hoje, cada vez maior. Se não lutarmos firmemente pela nossa identidade e independência, acabaremos por ficar reduzidos a um simples protectorado de grupos económicos e financeiros de um dos países ricos, caso da inevitável Alemanha. O nosso passado glorioso jamais poderá aceitar passivamente este aviltamento. O esboroar-se da república portuguesa, arrastar-nos-á para momentos de angústia, servidão e miséria social. Estão em jogo a sobrevivência dos valores e ideais da república que alimentaram as vidas e esperança de muitos homens corajosos e de uma nação sedenta de justiça e liberdade. Na galeria dos intrépidos defensores desses ideais, destaca-se a pessoa de António José de Almeida.

Em 28 de Abril de 1912, Torres Novas contou com a sua presença, acompanhado por vários senadores e deputados. O insigne político, ocupará, mais tarde, o principal cargo da nação, sendo o único Presidente da primeira República, a cumprir integralmente o mandato (5 de Outubro de 1919 a 5 de Outubro de 1923).

Nesse dia, na estação de Torres Novas, um mar de gente aguardava a sua chegada. Alguns deles, figuras ilustres da nossa terra, outros, ligados ao partido republicano. Evoquemos os seus nomes, fazendo-os emergir, através das palavras, da sombra do esquecimento: José Vassalo, José Gonçalves Mautempo, Drº Ribeiro de Almeida, José Antunes da Silva, Manuel Vieira Borga, Manuel da Costa Nery, Inácio Tuna, José Soares Isaac, Domingos Francisco de Oliveira, Viriato Cerca, José António dos Reis, João Caetano da Silva, Joaquim Pereira Madeira, Domingos Francisco de Oliveira, José Simões da Silva, João da Silva Costa. Na povoação dos Riachos, ao som de uma banda de música, o povo dispensou aos visitantes manifestações de afecto, carinho e louvores à república.

À chegada a Torres Novas, o calor e o entusiasmo manifestado pela visita de tão ilustres representantes, redobraram de intensidade, sendo agora acompanhados pelos acordes da Portuguesa e pelo ruído ensurdecedor de centenas de foguetes. Das janelas da vila, “dos peitos inflamados e sinceros” dos torrejanos, ouviam-se enormes aclamações, enquanto as senhoras atiravam flores para os ilustres visitantes. Uma chuva miudinha não foi suficiente para afastar o imenso povo que ansiava por escutar as palavras encorajadoras “da mais lídima encarnação dos ideais republicanos”. Dirigiram-se então para o Centro Republicano Guerra Junqueiro, situado na vila. Aí, o senhor Raul Estrela, proferiu “uma saudação eloquentíssima”, expressando o seu enorme contentamento, por António José de Almeida visitar as gentes de Torres Novas. No final do discurso, o ilustre visitante agradeceu o carinho e a simpatia do humilde povo torrejano. Mas, para o arauto da liberdade, todas estas homenagens, deveriam reverter para “o partido evolucionista e para a República, à qual ele é o mais ardoroso defensor e dedicado amigo”. A República- segundo as suas sábias palavras-, é” o único símbolo e garantia da independência da Pátria.”

Bem longe do nosso país se encontram políticos desta índole, devotados à “coisa pública”, que colocavam os interesses da nação e do povo acima de negociatas, ou do espírito servil, face aos grandes potentados económicos e financeiros.

Na visita a Torres Novas, António José de Almeida declarou que veio “defender a paz e fraternidade, que são sentimentos indispensáveis para congraçar todos os republicanos dispostos a bem servir a causa da sua pátria.”

Estas palavras, pronunciadas há cem anos, ecoam nas nossas mentes com uma pertinência e actualidade inelutável. Não são um apelo ao ressurgir de um pueril e vazio nacionalismo. Expressam, apenas, a defesa da identidade e independência de uma nação, com mais de oitocentos anos de história. A mais velha da Europa! Um país, que nos nossos dias, procura construir uma sociedade sustentada – desde o último século- pelos ideais das revoluções de 5 de Outubro e do 25 de Abril.

Propor, no tempo presente, a encapotada refundação do Estado e, em última instância o país, é trair o espírito republicano e os sonhos de Abril. Ainda mais, de mãos dadas, com os algozes estrangeiros (a famigerada troika), que não se importaram minimamente, através da agiotagem e austeridade, em reduzir à miséria e ferir a dignidade de um povo.

O apelo à “união da pátria”, proclamado em solo torrejano por António José de Almeida, expressa o sentimento de que um povo só é verdadeiramente livre quando controla e é dono do seu próprio destino. Situação que, nos nossos dias, se encontra prisioneira de ambições e desmandos, estranhos à vontade e esperança do povo português.

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