SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 01:37

A Desobediência Civil

A sociedade portuguesa está doente! Um pouco adormecidos, vamos assistindo, impávidos e serenos, à degradação contínua e vertiginosa da situação social, sustentada por um modelo económico – financeiro predador e irracional, cujos efeitos perversos não param de aumentar: milhares de jovens e adultos são impiedosamente atirados para as malhas do desemprego; os idosos vêm-se obrigados a sobreviverem com reformas miseráveis e ridículas; os doentes crónicos debatem-se com a aflição de não terem dinheiro para comprarem os fármacos que os ajudem a prolongar dignamente as suas vidas. Uma cega máquina fiscal, trituradora e abjecta, rouba sem pudor os fracos rendimentos da maior parte dos seus cidadãos, colocando fora das suas garras os multimilionários e grandes grupos económicos e financeiros. Alastra-se pelos corredores do poder a corrupção que, paulatinamente, vai sugando as exauridas riquezas nacionais, destruindo o equilíbrio da sociedade.

Este é o claro diagnóstico dos males que apodrecem e aniquilam as já de si débeis estruturas democráticas do país. O acto simbólico acontecido com o hasteamento ao contrário da bandeira portuguesa, na cerimónia da comemoração da Implantação da República, apenas veio comprovar o estertor de uma nação debilitada. Um país onde é cada vez maior o divórcio entre os cidadãos e os políticos, fruto da insensibilidade e impreparação dos actores políticos para gerirem o bem público. Ao esconderem este momento solene dos seus eleitores mostraram o pouco apreço que devotam aos seus cidadãos. Esquecem-se que sem a adesão do povo, as cerimónias do cinco de Outubro deixam de ter sentido, ficando reduzidas a meros gestos formais, desarticulados da vida e esperança que irmanam.

Bem pode afirmar – com laivos de cinismo- o ministro das finanças que “o povo português é o melhor povo do mundo”. Não se lembrou de dizer que, ao longo dos vários anos após o 25 de Abril, foi (des)governado por uma elite política  preocupada, em primeiro lugar, com os seus interesses e dos grandes senhores. Até quando continuaremos a suportar os negócios ruinosos perpetrados pelos governantes, como no exemplo escandaloso das Parcerias Público-Privadas!?

Ao “melhor povo do mundo” o representante governamental não se importa de continuamente o sobrecarregar com uma pesada factura fiscal. Os seus actos políticos podem descrever-se através do seguinte desabafo: “É UM ROUBO!”. Um sentimento doloroso vivido pelos contribuintes cada vez que o ministro anuncia uma nova medida para controlar o défice.

Hoje, em Portugal, vigora um Estado injusto e ineficiente, que para fazer valer os seus ditames faz uso da tirania. Se não fizermos nada, a autonomia do país e o instável bem-estar dos cidadãos estarão perdidos. É nosso dever moral questionar as acções do governo e a sua finalidade. Só assim deixaremos de agir como um ordeiro rebanho num matadouro, que espera passivamente o golpe final do cutelo do magarefe. O exercício da cidadania legitima a nossa contestação num quadro em que a liberdade e os direitos do homem são espezinhados. Perante leis iníquas e o desprezo por quem trabalha, é nosso dever recusar a humilhação que, continuamente, vamos sendo sujeitos por parte dos actuais mandantes.

Ao contrário do que assevera o ministro, os portugueses não são o “melhor povo do mundo”. Para ascenderem a essa situação, devem ser mais exigentes com os políticos, obrigando-os a prestarem contas pelos seus actos enquanto representantes do povo. Até agora, dos casos de corrupção conhecidos que envolvem figuras políticas, não há indícios que apontem para a sua verdadeira criminalização.

A instituição de um Estado Democrático de Direito exige uma cidadania mais interveniente (e não apenas, de quatro em quatro anos), para que se possa construir uma sociedade mais justa, onde todos possam viver com dignidade.

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