SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:11

Um Herói Torrejano (parte 1)

Ao subirmos a escadaria que leva à porta principal da Biblioteca de Torres Novas, no lado direito do recinto, antes da entrada, somos confrontados por um busto de bronze em cujo semblante parece vislumbrar-se um largo sorriso, como que a agradecer-nos pela visita às instalações que ostentam o seu nome. Esse rosto, moldado pelo frio metal, outrora pertenceu a um homem que na terceira década do século passado realizou o sonho de inaugurar, aos setenta e três anos – no belo edifício situado no Largo dos Combatentes da Grande Guerra-, uma Biblioteca e um Museu para os seus conterrâneos, Na altura em que a última estação da vida, clama pelo apagamento dos frémitos da alma.

Que podemos dizer sobre o homem a quem muitas gerações de torrejanos devem uma parte essencial da sua formação? Gustavo Bivar Pinto Lopes, ou simplesmente, «o Bivar da Companhia de Moçambique», para o distinguir do seu irmão Rafael (outro ilustre torrejano das lides ultramarinas), nasceu em Torres Novas, no dia oito de Abril de 1864. Fez os primeiros estudos em Santarém e Coimbra, vindo a concluir o secundário na terra do Almonda. Em Lisboa, cursou as aulas do Instituto Geral de Agricultura, onde adquiriu conhecimentos, ligados à Topografia e Zootecnia, que iriam revelar-se de extrema importância na sua aventura africana. Por um período de quase dois anos desempenhou funções na Câmara Municipal de Torres, antes de rumar para a cidade de Moçambique, no ano de 1886, para ocupar o cargo de escrivão de direito. Em Novembro desse ano, assumiu também o cargo de adjunto do Inspector e Sindicante aos prazos da Coroa da Zambézia. Fez parte de várias expedições e campanhas, onde ficaram registadas – através dos testemunhos de colegas e superiores-, a sua grandeza de carácter, coragem e valentia. Estas suas façanhas levaram a que fosse agraciado com diversos louvores e condecorações, entre os quais destacamos: Medalha de Prata da Rainha D. Amélia, Medalha de Ouro de serviços distintos e relevantes no Ultramar, Louvado pela Portaria Provincial E. nº 1418 de 28 de Maio de 1920, louvado pelo Conselho de Administração na sua sessão de Março de 1923, Grau de Cavaleiro da «Antiga e muito nobre ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito (distinção honrosa raramente concedida a civis), e o colar da Torre e Espada, numa cerimónia realizada no dia 28 de Maio de 1943, em que não faltou a presença dos seus compatrícios. Este momento marcante da sua vida foi descrito num dos seus artigos publicados na Revista «O Mundo Português», com o título “ Memórias de um Sertanejo”. Deixemos aqui expressas as suas palavras, plenas de vivacidade, dando conta do invulgar episódio: «A acompanhar algumas excelentes fotografias, representando vários aspectos da cerimónia de consagração dos Heróis de África (…), em 28 de Maio deste ano, publicou “O Mundo Português”, num dos seus últimos números, um brilhante artigo sobre aquela grandiosa cerimónia. Se, a respeito da mesma, venho pedir hospitalidade a esta acolhedora revista, não é que tenha a acrescentar ou opor qualquer coisa àquele belo artigo. É apenas para tentar desfazer qualquer equívoco que possa ter surgido a respeito da minha modesta e apagada pessoa.

Como é sabido, (…) resolveu-se que essa medalha fosse por sua Exª entregue simbolicamente a um almirante e um marinheiro, a um general e um soldado, e a um civil. Coube-me a mim a honra de representar a nossa reduzida classe, talvez por ser mais velho, ou ainda por ser o mais antigo como colonial.

Sei que algumas pessoas, vendo-me, desconhecido da maioria senão da totalidade da assistência, receber a medalha e o abraço do Srº Presidente, pensaram que seria eu o único civil possuidor da Torre-e-Espada; outros que era eu o mais digno daquela suprema distinção. Uns e outros estão em erro. Não sou o único, nem sobretudo o mais digno.

(…) O meu bairrismo não me consente também que passe em silêncio a circunstância de a Câmara Municipal da minha terra me ter acompanhado a Lisboa no dia da consagração oficial, associando-se assim à mesma, e enchendo-me o coração de reconhecimento.»

Frases sinceras de um homem íntegro e modesto, que nunca se envaideceu com as honras atribuídas e feitos heróicos. Simplesmente acreditava que os merecimentos que lhe foram justamente conferidos, outros seriam mais dignos de os receber.

(continua)

Vitor Antunes

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