SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 16:58

O Riso da Alma

Uma das manifestações que melhor caracterizam o homem é a capacidade de rir. A ele foi-lhe atribuída esta particular emoção que utiliza em situações onde o cómico e o invulgar irrompem. Dificilmente conceberíamos a natureza humana despida da faculdade do riso. Como fenómeno social, possibilita a ligação entre o eu-singular e o eu-colectivo, já que implica a cumplicidade do outro. O nosso riso é sempre um riso em grupo. Ele é também uma das atitudes possíveis face aos grandes problemas da existência.

O riso assume uma vertente positiva e saudável na nossa vida. Ligamo-lo áquilo que é agradável e do qual nasce a alegria. É esta dimensão do riso, o simples rir (Selan), sem um propósito malicioso que pretendemos apresentar, com base em incidentes ocorridos na vida profissional da actriz torrejana, Virgínia Dias da Silva.

Para o grande público os actores dramáticos são indivíduos que, no palco, em nenhum momento, abandonam a gravidade inerente às personagens por si encarnadas. Ao vestirem a pele dos grandes heróis e heroínas trágicas, espera-se que controlem cada passagem, calculando todo o arco da representação, sem dar margem a surpresas. Mas, às vezes, os imponderáveis acontecem, deixando adivinhar nos seus rostos uma réstia de folia ou riso.

Há registos de situações desta natureza ocorridas entre os artistas do teatro D. Maria II. Algumas provocadas premeditadamente, outras decorrentes da utilização em cena de recursos pouco apropriados ou resultantes de um pequeno imprevisto. Vem-nos à memória o relato escrito de um desses episódios, envolvendo a actriz torrejana e o actor Teodorico, em resposta ao desafio provocatório da sua companheira de teatro, a distinta actriz Rosa Damasceno.

Virgínia da Silva e Rosa Damasceno eram muito amigas. Uma terna e salutar amizade unia-as. Quando juntas, o riso e a brincadeira fervilhavam ininterruptamente nas suas mentes, indo ao ponto de pregarem com frequência imensas partidas aos seus colegas de profissão. O papel de mentora cabia à actriz escalabitana, prontificando-se Virgínia a executar o plano. Ora, sabendo que o velho actor, Teodorico, tinha horror em ser beijado – e, até mesmo, quando em cena tinha que beijar a mão de alguma personagem, era no seu próprio polegar que beijava-, Rosa Damasceno desafiou a sua amiga, a beijá-lo seriamente na peça em que participavam. Dito e feito! No dia da estreia, com a sala em cunha, na cena do beijo, Virgínia da Silva – para enorme espanto do actor Teodorico – deu-lhe o inesperado beijo, deixando-o a tartamudear as palavras da sua personagem. Ao riso nervoso da actriz torrejana, o actor Teodorico, muito atrapalhado repreendia-a, dizendo: «Oh! rapariga! Oh rapariga! (…)».

A emoção que aflorava espontaneamente nos lábios da actriz torrejana nada tinha de trocista ou agressivo. Pretendia apenas arrancar nos seus colegas uma afável e inocente gargalhada, fruto da alegria de viver entre iguais. Era frequente nos bastidores, antes de entrarem em cena, vê-los a rir uns com os outros.

Outros episódios rocambolescos aconteceram no palco do teatro D. Maria II, despertando em Virgínia, o riso autêntico de uma alma sã e pura. Situações como a que foi vivida na peça “Fédora” em que a actriz na cena final do primeiro acto, mantém morto nos seus braços, o príncipe Vladimir, metamorfoseado num travesseiro, dada a inconveniência de socorrer-se de um bebé. Ou quando teve, no terceiro acto do «Maître de Forges», de representar a personagem Claire Derblay, que se mostrava renitente em acompanhar o seu marido ao quarto nupcial. Vai daí, um espectador muito irritado acusou-a de “Orgulhosa!”. Também na representação da tragédia “Otelo” de Shakespeare, V-II, ao cair do pano – após o assassinato de Desdémona pelo seu esposo -, um ataque convulsivo de sonoras gargalhadas ecoou dos lábios da actriz, em resposta a um pequeno incidente verificado na última cena.

Hoje, de uma maneira geral, o riso não passa de um “movimento sonoro” doseado e controlado, como se fossemos actores de uma comédia que é necessário representar, para não sermos postos de parte. Um riso sem chama, cool, dessacralizado, que longe de ser uma festa do espírito, é-nos imposto como um mandamento social. Ao convivermos com os outros é de bom-tom rir de uma piada ou situação, mesmo que não lhes achemos graça nenhuma. O riso, nos nossos dias, carece um pouco de autenticidade e de comunhão entre os espíritos. Em alguns casos, estamos ligeiramente distantes do riso presente nas peripécias vividas pela actriz torrejana, Virgínia Dias da Silva.

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