SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 01:03

O Último Rei em Torres Novas

O Último Rei em Torres Novas

Ao abordarmos, no presente artigo, a figura do rei D. Manuel II, não pretendemos alimentar no público-leitor nenhuma espécie de saudosismo pela monarquia. Até porque, julgamos que a democracia – sustentada por um regime republicano – é uma forma de governo mais “aperfeiçoada” do que o sistema monárquico. Sonhar com a instauração da realeza no nosso país, é sucumbir aos devaneios e sonhos infantis, e não perceber a igualdade natural que há em todos os homens. A nobreza e superioridade existentes nos seres humanos (se assim podemos falar) estão inscritas no carácter e dignidade das suas acções. A genuína realeza não vai além disso, e a figura de D. Manuel II ergue-se como um verdadeiro arauto desta rara característica, que vai para além da mera consanguinidade. Um rei de uma grandeza de alma e amor à Pátria como houve poucos neste pequeno país.

Assim, o nosso propósito é, pois, falar da visita desse homem invulgar e extraordinário, a Torres Novas, realizada nos remotos dias 21, 22 e 23 de Agosto de 1909.

Após o regicídio (1 de Fevereiro de 1908), o jovem monarca subiu ao trono real para cumprir de forma honrosa, os dois anos e meio que esteve à frente dos destinos da Nação. O povo tinha por ele um enorme apreço. Em cada terra por onde passou recebeu calorosas manifestações de carinho. Torres Novas foi uma das localidades que teve o privilégio de registar a sua presença. Um acontecimento divulgado pela comunicação social torrejana da altura.

Também Artur Gonçalves, numa página manuscrita pertencente ao seu espólio, descreveu passo a passo os vários momentos da visita régia. Julgamos que estes dados foram recolhidos indirectamente. Nesta data ainda não integrava os quadros camarários. Na folha é relatada a chegada do rei e recepção por parte dos representantes da vila: «Acompanhado do Ministro da Guerra e dignitários chegou à estação do Entroncamento às 11 horas e 17 minutos da manhã onde era aguardado […] e representantes da Câmara […].»

Refere a sua visita à Escola Prática de Cavalaria e o facto de ter assistido ao concurso de hipismo no Entroncamento. Nestes dias festivos, as principais ruas de Torres Novas achavam-se vistosamente ornamentadas com iluminações à moda do Minho; casos da Praça Velha, Rua Serpa Pinto e Praça Dom Manuel II (nome proposto na Sessão Câmara em 19 de Agosto de 1909).

Artur Gonçalves diz que «o rei à noite, na janela do Clube Torrejano, presenciou as deslumbrantes iluminações. No regresso ao quartel foi acompanhado por uma vistosa mancha luminosa composta de milhares de pessoas.»

Acompanhando as palavras do ilustre historiador, no dia seguinte, 22 de Agosto, «o rei de manhã assistiu à missa na igreja do Carmo pelo Padre João Roque. Dali dirigiu-se para os Paços do Concelho, onde lhe foi feita uma calorosa manifestação, após a qual, o Presidente da Câmara, Olímpio José Monteiro, pronunciou um discurso» em que, «imploravam a El-Rei que aceitasse a licença para que a praça por onde tinha passado ostentasse o seu nome em homenagem à sua visita a Torres Novas.» No final, o jovem rei «assinou o seu nome no livro dos Anais.

Seguiu a pé para a Escola, acompanhado por uma enorme multidão. Visitou o hospital […].

Pelas três horas seguiu para o Entroncamento, onde assistiu aos exercícios finais da Escola.

À noite novamente assistiu das janelas do Clube Torrejano às iluminações e ao fogo-de-artifício. Recolheu à Escola.»

No dia 23 de Agosto, «às 9 horas da manhã seguiu para o Entroncamento onde embarcou para Lisboa.»

Todo este calor humano e enaltecimento da figura do rei, não foram suficientes para que, após a revolução republicana de 1910, se continuasse a atribuir o seu nome à praça principal da vila. A homenagem calorosamente prestada – um ano e dois meses antes -, foi literalmente varrida da toponímica de Torres Novas. Com a instauração do novo regime, o local onde se encontrava “gravado na memória colectiva” o seu nome, passou a chamar-se praça 5 de Outubro.

Talvez possamos ver nesta mudança uma injustiça feita pelo povo torrejano à alma generosa de um rei que sempre colocou a pátria acima dos seus interesses. Muitas vezes, a cegueira ideológica tem o triste condão de não nos permitir reconhecer, em outros campos opostos ao nosso, homens probos e leais. Foi o que aconteceu com o último rei de Portugal. Na nossa extensa história de figuras régias, poucas são as que desencadeiam a enorme admiração e simpatia que tem o rei D. Manuel II. A sua biografia fala de um homem que, mesmo no exílio, sempre se mostrou devotado aos problemas do país, prontificando-se a servi-Lo. Tarefa de uma vida, continuamente relembrada, como vemos pelas palavras escritas, em Fulwell Park. Twickenham, a vinte e dois de Dezembro de 1931, poucos meses antes de extinguir-se da sua esforçada missão: «Como sabe, o lema da minha vida difícil e amargurada tem sido servir a Pátria. E, se A tenho podido Servir, cumpri o meu Dever, o maior prémio que um homem pode ambicionar.» Exemplos do seu lema foram as acções desenvolvidas durante a Grande Guerra – numa enorme demonstração de amor à pátria-, e a sua paixão pela história do seu povo, levando-o a coleccionar livros antigos portugueses, com vista a preservar as jóias espirituais e culturais do nosso país.

Vitor Antunes

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