SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 21:48

Notas sobre um quadro perdido do pintor Carlos Reis

Há pintores que mesmo longe da terra que os viu nascer, transportam durante a vida inteira as suas gentes e paisagens. Almas telúricas, prenhes de recordações do pequeno torrão onde deixaram familiares e amigos. Vidas marcadas pelos lugares da sua infância.

O pintor, Carlos Reis, insere-se nesta plêiade de artistas. Através das cores e temas dos seus quadros, vibra a simples alma portuguesa e resplandece o ambiente rústico da paisagem nacional, formado na ruralidade torrejana.

A passagem por Paris, na qualidade de estudante, foi fundamental para a descoberta dos segredos ligados à poesia da luz e ao domínio da paleta das cores, mas não lhe apagaram o seu carácter e portuguesismo. É também na capital francesa que desenvolve as suas capacidades de exímio retratista, tendo como mestres Bonnat e Joseph Le Blanc. Este saber revelou-se importante para a captação do espírito e epopeia da vida campestre portuguesa, presente em muitas das suas obras.

A estadia em solo francês prolongar-se-á desde o ano de 1889 até aos princípios de 1896. Algumas biografias, colocam o seu regresso definitivo a Portugal em 1895, mas se atendermos às palavras de Carlos Reis, ”Ali me conservei até 1896”, a primeira hipótese é a mais correcta.

Na cidade luz, pinta os trabalhos finais na condição de bolseiro do Estado. Entre eles, destaca-se o quadro “Pôr-do-sol”. Uma tela de enormes dimensões 4,00 x 2,80 onde as qualidades e talento de grande artista são evidentes. Esta magnífica paisagem campestre perdeu-se aquando o naufrágio do vapor «Santo André» – de regresso da capital francesa -, depois de integrar o lote de quadros portugueses enviados para participar na Exposição Internacional de Paris. O neto do pintor, no seu livro, profusamente documentado, sobre “Carlos Reis”, comete uma pequena gralha ao referir, na página 55, o ano de 1900 como a data do acidente. Mais à frente, na página 328, no texto transcrito da publicação «A Voz», de uma carta de Carlos Reis, cita o ano de 1901.

O pintor torrejano passou por uma grande tristeza quando a tela se perdeu no fundo do mar. Na sua modéstia, acreditava ter feito “um quadro menos mau”- como salienta na carta, escrita de Paris, ao seu amigo Vilaça, em 19 de Setembro de 1894. Com esta obra, Carlos Reis atingiu a maioridade artística. O seu acolhimento, por parte da crítica e público, foi bastante elogioso. Inicialmente, deparou-se com algumas dificuldades na sua elaboração: «não imaginas o trabalho colossal que tenho tido e terei até acabar o quadro […]; um péssimo tempo para fazer os estudos no campo.» Como é do conhecimento geral, o nosso conterrâneo privilegiava a pintura ao ar livre.

Entusiasmado pela obra que estava a realizar, descreve na carta o tema do quadro ao seu amigo: «o meu assunto é o seguinte. Um camponês no primeiro plano que volta do trabalho trazendo à rédea dois cavalos, um branco outro castanho. Este camponês descobre-se a um enterro duma criancinha levada por rapariguinhas vestidas de branco que atravessa a planície por entre as searas. Um pouco mais atrás do velho vem uma velha que se inclina e benze-se segundo o costume que tu daqui conheces. Esta cena é ao pôr-do-sol e há um cão no primeiro plano que uiva.» – Na cópia a que tivemos acesso da pintura, não conseguimos visualizar o cão que refere.

Trata-se de uma pintura plena de poesia e simbolismo, onde o tema da morte perpassa através da imagem do final do dia, da criança que vai a enterrar e dos velhos que aguardam a sua inelutável vinda. A gravidade do assunto da tela contrasta com os brancos admiráveis e diáfanos presentes nas figuras. Deles brotam uma singela inocência. Um quadro onde as cambiantes das luzes e variedades das cores enchem-nos de um poético encanto. A intensidade cromática e o feliz jogo pictórico das suas searas e horizonte dão-nos a perceber o extraordinário paisagista que foi Carlos Reis. Destaca-se também a predilecção do artista pelos momentos finais do dia e da vida no campo, como salienta na citada carta: «Sabes como é belo o pôr-do-sol nas tardes de Junho, e como são lindas as searas.»

A pintura, o “ Pôr-do-sol”, exposta ao público na Academia, conjuntamente com o quadro “Manhã de Clamard”, foram bastante aplaudidas pela crítica. No ano de 1900, viajaram até Paris, onde, no percurso de regresso, aconteceu a irreparável perda.

Carlos Reis, ao longo da sua vida, não colocou a hipótese de novamente realizar as referidas obras desaparecidas. Substituiu, como trabalho final por conta do Estado, o “Pôr-do-Sol” pelo quadro de “A Feira”. A tela “O Milheiral” executou-a como compensação pela perda da “Manhã de Clamard”. Estas obras pertencem ao espólio do Museu de Arte Contemporânea.

No Museu Municipal Carlos Reis, há uma tela – sem data – designada «Pôr-do-Sol». Não é a que abordámos no presente artigo. Além de ter dimensões mais reduzidas (103 cm x 158 cm) em relação ao quadro perdido, o assunto é menos figurativo e simbólico; centra-se mais no jogo de luz (do claro-escuro), no qual Carlos Reis era um prodigioso mestre.

Vitor Antunes

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