SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 00:18

Inventem-se Novos Políticos!

Hoje em dia, para o cidadão comum, a política nacional encontra-se prisioneira de indivíduos medíocres e corruptos, que, frequentemente, agem de acordo com as suas conveniências e ambições, colocando a esfera pública ao serviço dos interesses corporativos. Nascidos e criados no seio dos partidos – sem os quais se sentiriam inúteis e desamparados – vão de mentira em mentira, de intriga em intriga, de servilismo em servilismo subindo os degraus da escada do poder, até que encalham no lugar de presidente, deputado ou em ministro. Grande parte da geração dos actuais representantes formou o seu carácter vogando nesta sombria odisseia.

Providos de uma máquina política deste jaez, dificilmente a sociedade portuguesa poderia apresentar figuras públicas que rivalizem em integridade moral com um Alexandre Herculano, Mouzinho da Silveira, Antero de Quental, Teófilo Braga, Sebastião Magalhães Lima ou, até mesmo, do ilustre torrejano, Sebastião Dantas Baracho. São políticos desta índole que aumentam o valor de uma nação e credibilizam as instituições de um país.

Quem se interessa por temas ligados à História-Pátria, constata que as palavras expressas por estes grandes nomes da nossa cultura, sempre estiveram em consonância com as suas acções, nunca traindo os princípios e ideais trilhados. Bem diferente do que hoje assistimos no jogo político da nossa sociedade, onde as afirmações ditas num dia podem ser negadas depois. Às vezes, bastam apenas algumas horas para que a verdade passe a mentira e vice-versa.

Deste forma, o escrito (tomado de empréstimo a Magalhães Lima), que se encontra na antiga casa de Dantas Baracho, situada na rua Drº F. L. Gouveia Pimenta, nunca teria crédito dentro das hostes dos políticos que nos (des)governam. Talvez os seus lemas se aproximassem da banal citação “ O que é hoje verdade amanhã será mentira”, ou da frase “ O carácter de um homem muda consoante as circunstâncias”.

Não foi por mero acaso que o nosso conterrâneo escolheu as palavras de Sebastião Magalhães Lima. Comungou de perto com os seus ideais e acompanhou o seu percurso, recheado de acções que falam de um homem íntegro e desinteressado. Uma vida construída à base do mérito pessoal e da acérrima defesa de causas humanitárias, como atesta a fundação, em 1921, da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem. No período da transição da monarquia para a república, o nome de Magalhães Lima ombreia com as grandes figuras que possibilitaram a implementação do novo regime. Também o seu papel como embaixador foi importante para o reconhecimento da nova ordem, por parte das potências estrangeiras, algumas delas monárquicas. Homem Justo e Bom, procurou sempre espalhar o Bem, minimizando o ódio que poderia instalar-se à sua volta. Para ele, “só o amor edifica” – como podemos ler na pequena dedicatória presente na fotografia-postal.

O poder e influência que acalentou nessa época nunca lhe toldaram as suas mais profundas e sinceras convicções, e a infinita gratidão que tinha pelo «grande e heróico povo português (…). Nele, e só nele é que encontrava o civismo, o espírito de sacrifício, que devem caracterizar os leais servidores da pátria.»

Democrata no sentido pleno da palavra, defendeu «as duas grandes virtudes» da democracia: a simplicidade e modéstia. Avesso às vaidades e ambições, procurou desempenhar os vários cargos importantes a que foi chamado na sua vida, preservando a sua integridade moral.

Se tivéssemos actualmente meia-dúzia de políticos desta estirpe, o país e o cidadão comum não estariam, neste momento, sujeitos às humilhações constantes que a comunicação social vai dia-a-dia divulgando. E nem os representantes se prestariam a agir de maneira aviltante, fazendo tábua rasa da sua consciência moral e cívica. Experimentariam a mesma sensação de nojo por que passou S. Magalhães Lima quando exerceu, por pouco tempo, as funções de Ministro da Instrução Pública (nos nossos dias, Ministro da Educação), de 17 de Maio a 19 de Junho de 1915, no governo presidido por José Ribeiro de Castro.

No período após a revolução de 5 de Outubro, (tal como aconteceu depois do 25 de Abril), a política portuguesa foi dominada por oportunistas, gente de carácter apodrecido, ligados a clientelas, a quem não se importaram de vender a autonomia do País. É neste ambiente confrangedor que Magalhães Lima escreve, em 12 de Junho de 1915, ao filósofo Sampaio Bruno, manifestando a sua mágoa e tristeza perante a nova geração de políticos que tomaram de assalto o poder. Diz o seguinte: «(…) por si nutro a admiração afectuosa que vem desde a nossa mocidade. Quanto a nossa geração era diferente da actual. É preciso passar pelo poder, para bem avaliar do que tudo isto é e do que tudo isto vale. Que horror me está causando a política, meu amigo. Física e moralmente, saio daqui arrasado. E aí tem o motivo, porque me consola conversar com os velhos amigos como tu e recordar o passado e viver um pouco melhor.»

Qualquer pessoa de bem que estivesse à frente dos actuais ministérios só poderia sentir repúdio e desolação perante as medidas acéfalas e desumanas que saem dos gabinetes. É urgente responsabilizar a classe política pelos males que infligem sobre o país e cidadãos! E exigir que, para o exercício dos cargos políticos, não bastam apenas o cartão do partido e um vasto historial de traições. Deviam fazer – como em qualquer outra profissão – provas que atestassem da sua idoneidade ética e capacidade intelectual para o exercício do cargo.

Se os professores, médicos, enfermeiros, electricistas, advogados, fazem testes rigorosos e estágios para aferir das suas aptidões profissionais, por que não fazer o mesmo com os políticos!? Só assim caminharíamos para a dignificação de uma actividade que atravessa as ruas da amargura e atingiríamos os patamares de excelência, tão ao gosto do linguajar do actual ministro da educação.

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