SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 00:59

A estrela cadente do renascimento Torrejano (parte 3)

O nome da ilustre torrejana passa a ser sinónimo de mestra na corte real e de erudita e sábia para o mundo das letras da renascença. Os seus ensinamentos estendem-se às donzelas e à própria Infanta D. Maria, desempenhando também as funções de secretária da princesa. As árduas tarefas a que estava sujeita não a coibiram de continuar a trabalhar nos seus projectos literários e filosóficos.

Luísa Sigeia tinha como propósito aspirar a uma vida independente, onde pudesse desenvolver as faculdades intelectuais e afectivas. O seu temperamento autónomo e do pai, Diogo Sigeu, não se coadunavam com o ambiente frívolo da corte e aos inconstantes humores dos príncipes, dados à arrogância e tirania (como podemos observar, estas vicissitudes, ainda são “privilégios” vulgarmente exibidos por muitos dos nossos actuais representantes políticos).

Face ao clima sombrio vivenciado no palácio, a família Sigeia abandona a cidade de Lisboa para se instalar em Torres Novas – talvez a influência de elementos das linhagens Mógo e Lencastre tenham sido determinantes para a escolha do solo torrejano.

Na vila, sua irmã, Ângela Sigeia, casa com o ilustre fidalgo da nossa terra, Antão Mógo de Melo e Carrilho, Juiz dos Órfãos e secretário do bispo de Ceuta, D. Jaime de Lencastre, prior das quatro freguesias de Torres Novas e principal obreiro do Convento do Carmo, através da doação feita aos carmelitas calçados, do terreno onde se encontram a igreja e convento, em 7 de Março de 1558.

Os laços nupciais também vão – na povoação do Almonda – seduzir Luísa Sigeia. O seu futuro esposo, Francisco Cuevas, era natural de Burgos, de uma família nobre com poucos recursos. Do casamento, realizado em 1552, resultará uma única filha, Juana de Cuevas Sigeia, nascida em 25 de Agosto de 1557.

Não partilhamos a ideia, defendida por alguns autores, de que o matrimónio da ilustre torrejana tenha ocorrido em 1557. A data do nascimento da sua filha põe em causa a referida tese. Podemos ainda reforçar a argumentação com base na ordem de pagamento, datada de 1552, de vinte e cinco mil reis a Diego Sigeu para o casamento de sua filha, Luísa Sigeia. Outras referências cronológicas enunciadas em estudos antigos, sobre a vida de ilustre torrejana, merecem ser reavaliadas para se determinar a sua veracidade.

Nesse ano de 1552, dedicou à sua protectora uma obra manuscrita, com o título, “Duarum virginum colloquium de vita aulica et privata” (Diálogo de duas Jovens sobre a Vida na Corte e a Vida Particular). Um texto em que Luísa Sigeia coloca em confronto duas jovens, Flamínia, que faz a apologia da vida da corte, enquanto Blesila defende a vida recatada – voltada para as coisas do espírito-, longe do tédio, do vazio e futilidade do meio palaciano. O diálogo acontece durante três dias numa casa de aldeia. O ambiente recorda as lições dos antigos clássicos, já que a discussão desenrola-se à borda de água, envoltas pela natureza.

São apresentadas as virtudes de uma existência simples, humilde, isenta das ambições que devoram os indivíduos, subjugados à luta pelo poder e regalias sociais. Os conhecimentos adquiridos por parte de Luísa Sigeia, através da leitura dos autores clássicos, vão ser aplicados na construção de raciocínios sólidos que defendem a adopção de uma vida contemplativa, centrada no princípio horaciano da « aurea mediocritas». Uma vida onde os excessos ou paixões fortes devem ser enfraquecidos. O que se pretende para as acções humanas é o meio-termo, a justa medida dos gregos, e o desapego a uma existência centrada nos bens materiais. Só desta forma poderemos alcançar uma vida virtuosa e feliz. Assim defende Blesila ao afirmar: “ as coisas humanas e perecíveis deslumbram de tal modo que não te lembras que todas elas são vaidade e tormento do espírito, tal como diz o Sábio, do mesmo modo que a condição feliz e orgulhosa dos poderosos é humilde e vil; porque o medo de a perder ameaça o homem feliz e o desespero cruel de nunca prosperar intimida o infeliz.”

Vários parágrafos à frente, no texto de Luísa Sigeia, encontram-se algumas críticas – de índole autobiográfica – ao comportamento volúvel dos príncipes, acusados de ingratos e egoístas: “Em primeiro lugar, pergunto se o serviço dos príncipes, como tu asseguras, é mais suave, se o favor é doce, se a convivência é melíflua, se as dádivas são vantajosas e as honras de grande apreço […] De onde não só são falsos todos os bens dos príncipes, porque são efémeros, mas também sem encanto, porque falsos, e ainda os males que infligem não devem ser temidos porque são muitas vezes injustos. […] Na verdade, quando começais a dedicar-vos aos príncipes, eles tomam-vos com o anzol da honra e das dignidades, depois, pelo uso e hábito desta tristeza, ficais presos necessariamente nesta imundície.”

Duras palavras dirigidas aos seus patronos e um lamento, que sugerem as razões da fuga de Luísa Sigeia e família do “ambiente dourado” da corte.

Pelo colóquio também perpassam diversas sentenças de autores cristãos. Numa passagem é referida a igualdade entre todos os homens. Um ensinamento muito comum aos sábios da igreja que, continuamente, nos alertam para a verdadeira condição humana e da insensatez de pretendermos ser superiores aos outros ou de explorarmos os nossos semelhantes. Escutemos as belas e incisivas palavras do alter-ego de Luísa Sigeia, Blesila: “ O mesmo Bernardo também aconselha os príncipes deste modo (demonstrando na pessoa de Eugénio a cegueira destes): Destrói o artifício desta honra e glória brilhante com cores falsas, para que consideres naturalmente a tua nudez, porque saíste nu do ventre da tua mãe, sem insígnias reais, sem o brilho das pedras preciosas e a da seda, sem ver coroado por plumas ou carregado com metais preciosos. De facto, se afastares todos estes ornamentos, como nuvens matinais passando o céu velozes e dispersando rapidamente, e o fizeres desaparecer da frente do teu pensamento, surgirá um homem nu, pobre e infeliz; um homem que se lamenta porque é homem, que cora porque está nu, que se lastima porque nasceu, gemendo porque existe. Todas estas coisas, minha cara Flamínia, não só não as vêem os príncipes (elevados pela vaidade da sua condição e dignidade), mas que fúrias não exercem contra os seus súbditos, inteiramente esquecidos do que lembrei segundo Bernardo?”

(continua)

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