SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 20:44

A estrela cadente do renascimento Torrejano (parte 1)

Nas palavras sibilinas do poeta este é o “tempo dos assassinos”, o tempo em que a barbárie perverteu e manchou de tons negros a alma e o espírito da actual civilização.

Tal como Diógenes de Sínope – que procurava um homem honesto em pleno dia com uma lanterna acesa – hoje, a árdua missão consiste em resgatar a humanidade de uma doença que vai para além da ganância financeira. Ela espelha a crise de valores existente na sociedade, onde os bem caros ideais da cultura humanista foram imprudentemente esquecidos. Sem eles, o homem perde a sua identidade, relegando-o para o plano de um simples ser amoral e, por vezes, imoral.

Bem longe estão as épocas em que, na formação do indivíduo, contribuíam os ensinamentos e sabedoria da cultura humanística. Em vez disso, colocámos a nossa fé nas mãos das ciências e tecnologia, convictos de que as suas fórmulas e invenções resolveriam os problemas do homem. O resultado está à vista: a par de uma ilimitada capacidade de recursos técnicos e informáticos vivemos numa época marcada por uma profunda instabilidade social e civilizacional, onde imperam o desrespeito pelo outro e pela natureza, reduzidos a meras coisas.

Não quero com isto dizer que os saberes tecnológicos e científicos são dispensáveis ou puramente prejudiciais. Só que, sem a figura da consciência humanística, tornam-se poderes cegos, altar onde são aniquiladas muitas das utopias do homem.

Desde os bancos da escola, assistimos ao desprezo ou quase extinção das disciplinas onde os jovens estabelecem o seu primeiro e fugaz contacto com os valores da matriz cultural do pensamento clássico. Ao centrarem-se os saberes ministrados apenas nas áreas das ciências naturais e técnicas – com a ilusão de preparar integralmente os adolescentes – construiu-se uma sociedade de tecnocratas, de indivíduos autómatos, desprovidos do sentido crítico e da capacidade sonhar. Numa comunidade onde morre o sonho, a esperança desaparece! E o pragmatismo reinante tem caminhado nesse sentido.

Também o analfabetismo cultural e humanístico, presente nos nossos representantes, são factores que contribuíram para a situação de miséria social vivida pelo cidadão comum. O país e o mundo estariam melhor se os governantes, substituíssem frequentemente a aridez dos gráficos, números, tabelas e estatísticas, pela leitura ao acaso, de frases escritas nas obras dos grandes autores da cultura humanística.

O jargão utilizado pela política, economia e finanças, corrompe e estiola qualquer consciência. Pelo contrário, as palavras dos clássicos têm o dom de despertar-nos para a vida humana, para os verdadeiros valores e sabedoria. Aproximam-nos da raiz dos problemas que afectam os homens e povos, chave importante para a sua ultrapassagem. Por outro lado, os autores clássicos exercem sobre nós um papel semelhante ao que é protagonizado pela figura do anjo no imaginário cristão. É o raio de luz que nos ilumina e protege das trevas da ignorância e crueldade.

Em solo torrejano já nasceram e viveram alguns desses grandes expoentes dos ideais clássicos. A um deles, foi-lhe concedido o privilégio de dominar os cânones da sabedoria. O mais impressionante é que se trata de uma mulher que viveu há quase quinhentos anos. Seu nome: Luísa Sigeia.

Nascida em Tarancón, província de Toledo, no ano de 1522 (alguns especialistas apontam esta data como sendo a mais provável), foi poetisa e intelectual, um dos maiores expoentes do humanismo ibérico renascentista. De pequena estatura, corpo frágil, onde se destacavam, no rosto de traço delicado, uns olhos negros muito vivos. Luísa Sigeia aprendeu muito nova com seu pai – um reputado humanista – a respeitar os grandes autores da cultura clássica. Diogo Sigeu, de nacionalidade francesa, veio para Portugal por intermédio de D. João III, sendo nomeado mestre do duque de Bragança, D. Teodósio I e de seus irmãos. O príncipe D. João, filho do rei D. João III, também foi seu discípulo. Desgostoso com a vida da corte veio residir para Torres Novas com as suas filhas. Na igreja do Carmo estão depositadas as ossadas de Diogo Sigeu, sua esposa e da neta Maria Madalena Velasco. A insigne torrejana tinha como propósito ser sepultada com o seu pai. Esta declaração de última vontade foi expressa ao tabelião da vila, Constantino Mendes Gouveia. Mas o destino não permitiu que tal acontecesse.

Muita nova, Luísa Sigeia revelou uma tendência inata para a aprendizagem das línguas. Falava correctamente castelhano, italiano, francês e escrevia nas línguas de Vergílio e Homero, hebraico, árabe e siríaco. A propósito da língua italiana, André Resende, afirmava que a nossa ilustre torrejana «escrevia a língua toscana com tal pureza, que os próprios escritos de Dante pareciam menos toscanos». Ao contrário da sua irmã, Ângela Sigeia, gostava do francês e expressava-se com grande facilidade, a ponto de todos a tomarem por francesa. O contacto com os grandes filósofos e poetas da antiguidade, habilitaram-na de uma invulgar cultura. Escreveu diversas epístolas ornamentadas com versos e sentenças dos autores clássicos.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados