SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 17:02

Um Gil Vicente Torrejano

Há pouco tempo, na cidade de Torres Novas, tivemos a oportunidade de observar a ritualização de um momento marcante da nossa história local. Foi o episódio das cortes de 1525, onde se decidiu e contratualizou o dote da princesa Isabel como esposa do imperador Carlos V. O facto ilustra a importância social e económica da vila torrejana na longínqua época quinhentista.

Gostaria, no espaço reservado ao presente artigo, de acrescentar um outro acontecimento ocorrido na mesma altura, com repercussões para a história pátria, ligado ao universo das artes literárias. Neste período nasceram para as letras, três ilustres dramaturgos torrejanos. Falamos de Simão Machado, António Prestes (o autor biografado) e Jerónimo Ribeiro Soares. Tradicionalmente integrados na escola de Gil Vicente, as suas obras estão marcados por uma forte aderência à linguagem e a algumas temáticas abordadas pelo “pai do teatro português”. É um verdadeiro enigma a circunstância de encontrarmos, na restrita plêiade de grandes autores quinhentistas nacionais, três letrados oriundos da mesma terra. Uma explicação plausível passa pela adopção do argumento de que na época em causa, o ambiente cultural existente em Torres Novas era bastante rico, possibilitando aos nossos antepassados as ferramentas necessárias para o cultivo e gosto pelas artes. O factor casualidade não recolhe o nosso apoio.

António Prestes, o mais notável e fecundo dos poetas quinhentistas torrejanos, nasceu na mesma casa, situada na antiga rua Direita (actualmente, Rua Miguel Bombarda), onde no ano de 1824 veio ao mundo o ilustre político e escritor Andrade Corvo. Contrai o matrimónio em Santarém, exercendo na referida cidade o cargo de inquiridor do Cível. Por volta de 1565 estabelece a sua residência em Lisboa. Autor teatral muito reputado na sua época e no século seguinte, a ponto de ser colocado, pelo insigne escritor D. Francisco Manuel de Melo, no mesmo pedestal literário de Gil Vicente ou até num plano superior. Hoje, podemos encarar esta análise, sobre a grandeza de António Prestes, como exagerada.

Mas a enorme importância de António Prestes está patente na primeira compilação que se conhece das suas peças teatrais, realizada no ano de 1587, por Afonso Lopes. Alguns estudos indiciam que foram publicadas anteriormente em folha solta durante a vida do poeta dramático torrejano. O título da obra diz o seguinte: «Primeira parte dos autos e comédias portuguesas, feitas por António Prestes, e por Luís de Camões, e outros autores portugueses […]». Dois dos sete autos do poeta torrejano encabeçam a primeira parte da miscelânea, precedendo nomes de outros autores como o de Luís de Camões. Também nesta edição figura um outro dramaturgo nascido em Torres Novas, Jerónimo Ribeiro Soares, criador do “Auto do Físico” que, inadvertidamente, não é mencionado como torrejano no excelente texto, “Evocação de António Prestes”, publicado pela revista “Nova Augusta”, nº 6 do ano de 1992, pág.77.

Nos séculos XVII e XVIII a obra de António Prestes cai no esquecimento. Um dos factores que contribuíram para o seu olvido, prende-se com a raridade e desconhecimento geral sobre a publicação do título em causa.

No séc. XIX apenas estava referenciada a existência de dois exemplares, um deles na posse de um particular, que sempre mostrou uma certa teimosia em cedê-lo para estudo ou sua divulgação. O outro, um pouco danificado, foi comprado mais tarde, em 1864, pela Biblioteca Pública de Lisboa. Por outro lado, a primeira tentativa de modernização da linguagem das obras de António Prestes, tornaram o texto confuso e inviável para ser encenado num palco.

A temática da dramaturgia de Prestes aborda a representação da vida, os negócios, as personagens tiradas da realidade quotidiana, a burguesia e a família. Há também no seu teatro uma função moral que ainda hoje reveste de uma enorme actualidade. Na sua peça autobiográfica, o “Auto do Desembargador”, – resenha da vida sentimental e dos conflitos morais de um magistrado no cair da adultez -, faz uma severa crítica ao estado deplorável da justiça e à sua burocracia. O tema da Justiça e do Direito move-se num clima de farsa no “ Auto do Procurador”, onde, com base na sua experiência pessoal, António Prestes vai em jeito satírico sofismando sobre a sua aparente harmonia: “tem toda a justiça, mas não tem todo o direito”.

Cabe ao “Auto da Ave-Maria”, o papel de ser uma das mais elaboradas e complexas moralidades portuguesas. É a obra teatral mais extensa do autor torrejano (composta por 2613 versos e 31 personagens), apresentando um quadro quase completo das aventuras espirituais do homem, palco onde se digladiam as forças do bem (a virtude) e as forças do mal (o vício). Apenas falta o episódio final, a chamada da morte. A alegoria inicial apresenta a alma como um castelo espiritual sujeita aos ataques do Diabo. Retoma o clássico tema da moralidade vicentina da queda e regeneração, presente nas obras do mestre, o “Auto da Alma” e o “Auto da Geração Humana”. Nesta obra encontramos também algumas influências do teatro inglês dos séculos XV e XVI. A sua apresentação no palco poderia ter acontecido num convento ou em outro local religioso. Mas só hipoteticamente é que se pode afirmar. O “Auto dos Cantarinhos” é a única peça da colectânea que refere a sua representação, ocorrida na cidade de Lisboa.

Esperemos que este simples texto consiga despertar o interesse para a redescoberta deste autor torrejano, hoje injustamente esquecido. Tal como o seu mestre, António Prestes mantém-se actual. Os males e as virtudes de que padecem os Homens não são muitos diferentes da realidade quinhentista. Mesmo o corrente incentivo à emigração foi no seu tempo criticado; por Gil Vicente, no “Auto da Índia” e por António Prestes, no “Auto do Mouro Encantado”.

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