SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 13:48

O pintor Carlos Reis na intimidade

No coração da cidade de Torres Novas, numa antiga casa senhorial, situa-se o acolhedor museu que ostenta o nome de um dos mais reputados cidadãos torrejanos. Trata-se do pintor Carlos Reis.

Nascido a 21 de fevereiro de 1863 – quase a comemorar 150 anos -, desde muito cedo o seu génio artístico começou a manifestar-se. No ano de 1881 inicia a sua passagem pela Escola de Belas Artes de Lisboa, tornando-se num dos discípulos dilectos de Silva Porto, professor que exerceu uma enorme influência no seu crescimento para o mundo das artes.   Além do reputado mestre, é necessário destacar o papel preponderante que teve o seu admirador e amigo, o rei D. Carlos, ao conceder-lhe uma bolsa para que pudesse continuar os seus estudos na pintura.

Mas não é a faceta de reputado pintor que o presente artigo tenta evocar. O nosso interesse recai sobre uma outra realidade. A do seu sentir e dos seus sonhos. Dos arrebatamentos de grandeza e humildade que enlevaram a sua alma de artista à medida que os humores iam oscilando entre a euforia e o desalento.

Num desses momentos em que a fantasia o irmanava, Carlos Reis confessava que gostaria de ser Miguel Ângelo, o incontornável génio da Renascença, com o propósito de “pintar no inferno do seu Juízo Final mais uns retratos”. Estas palavras revelam a forte impressão causada pelo fresco da Capela Sistina sobre o artista torrejano, a ponto de almejar para a sua paleta de cores o mesmo toque divino que vislumbramos nas obras do pintor nascido em Caprese.

Se as motivações pairavam sobre o universo das letras, o seu desejo passava por encarnar a figura de Erasmo. O objectivo de Carlos Reis era de fazer um apêndice à célebre obra do filósofo “Elogio da Loucura”, que denominaria a “Loucura do Elogio”.

Entre os seus desejos “ nas horas de desalento e humildade” havia um que encantava a alma sonhadora do mestre torrejano: a profissão de ferro velho. Para ele nada consegue descrever as emocionantes comoções provocadas pelas coisas dos tempos passados, “ao descobrir num velho armário na província uma chávena rasa e linda, uma preciosa gravura entre os montões de velharias inesgotáveis da “Feira da Ladra”, ou uma antiquíssima chave que tantos mistérios teve à sua guarda”.

Foi esta paixão pelos objectos velhos e preciosos que tornaram Carlos Reis num infatigável coleccionador. Na sua residência cercou-se de “coisas belas em todos os estilos, em todas as épocas”, como uma necessidade e complemento da sua profissão de pintor. Quem teve o privilégio de a visitar, nos anos vinte do século passado, ficou com a sensação de que estava dentro de um museu, tal a profusão de objectos artísticos presentes nas várias salas. Uma cómoda de Luís XIV em madeira rara- violeta- com embutidos; sofá e mesas Luís XV e XVI, uma arca de ferragem árabe, uma estatueta de “Machado de Castro”, um relógio “Lépine” século XVIII, pianos do século XVIII, jóias, porcelanas de Sevres, marfins, sedas, pratas, faianças, mobílias em pau-santo, tapetes de arraiolos etc., etc. As paredes das salas encontravam-se revestidas de inúmeros quadros, alguns do pintor Domingos Sequeira, Vieira Lusitano, baixos-relevos, águas-fortes e projectos de retrato do século XVIII. Até havia uma sanguínea atribuída a Leonardo da Vinci!! Onde se encontrará o referido desenho?

Chaves e leques ornavam as suas salas. Relíquias repletas de segredos e confissões insondáveis. É o mistério que encerram que fascinavam o olhar e a mente do artista quando as colocava nas mãos.

Esta sua vivência na arte e pela arte revela-nos a dimensão de Carlos Reis como um refinado e fervoroso esteta.

Para quem passou grande parte da vida rodeado das mais belas realizações humanas – não esqueçamos que foi director dos museus de Arte Antiga e de Arte Contemporânea- o facto de hoje o seu nome identificar o museu da terra natal, é a justa homenagem a alguém que viveu grande parte da sua vida em função do amor à arte.

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