SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 03:24

O Quarto Poder Amordaçado (parte 2)

Como jornalista, Maria Lamas, teve um papel muito importante na promoção cultural e cívica da mulher portuguesa, num tempo em que as suas funções estavam confinadas às paredes do lar. O exercício do cargo de directora do semanário Modas e Bordados  representou uma lufada de ar fresco no panorama nacional. Foi uma das primeiras mulheres a distinguir-se na difícil tarefa de chefia de um jornal.

Nas páginas da referida publicação encetará uma longa cruzada na batalha para a emancipação feminina. Uma das actividades mais marcantes da sua vida, em defesa de uma nova imagem da mulher, dá-se com a exposição dedicada ao Certame das Mulheres Portuguesas, no ano de 1930, onde reúne um vasto e diverso acervo de documentos sobre o trabalho artístico, literário e científico, da mulher portuguesa, desde o renascimento até ao final da década de vinte do século passado. Este evento ia ao encontro daquilo que a escritora torrejana preconizava para o sexo feminino: «saber pensar, saber sentir, saber viver […] no desejo de elevar a mulher, educando a sua sensibilidade, fortalecendo o seu espírito, dando-lhe a noção bem nítida da sua força, da sua responsabilidade, dos seus direitos e deveres.»

Mas o cinzentismo opressor de uma sociedade conservadora e obscurantista vai minando o ideal do seu projecto feminista de uma mulher autónoma, a ponto de confessar o seu desânimo ao grande amigo e escritor Ferreira de Castro: «Escrevo-lhe estas palavras num estado de espírito triste, sob uma grande fadiga física […] a minha vida no jornal vai-se tornando um problema moral cada vez mais grave […] para recomeçar a luta comigo própria, na aceitação de circunstâncias que tudo em mim repudia.» (24 de Maio de 1946).

O ciclo de uma brilhante carreira jornalística na Empresa de O Século estava a acabar. Iniciada em Abril do ano de 1929, como redactora; a partir do nº 1382, de 3 de Agosto de 1938, assume a direcção da revista  Modas e Bordados , sendo demitida em 4 Junho de 1947, face à intransigência em abdicar dos seus princípios cívicos e morais, na defesa das causas feministas, da liberdade e justiça. Na mesma linha está a atitude de Pedro Rosa Mendes ao ser a consciência da verdade e liberdade de expressão. Mal vai o país que tenta calar de forma insidiosa testemunhos probos e sinceros.

A correspondência trocada entre a escritora torrejana e o chefe do Jornal O Século, são reveladoras do nobre carácter de Maria Lamas, para quem as ideias e os ideais desembocavam em três princípios: liberdade, justiça e dignidade. É com base neles que recusa aceitar a proposta feita pelo seu superior, João Pereira da Rosa, para desvincular-se da instituição feminista da qual era presidente. Passemos a transcrever as suas férreas e doridas palavras:     « […} Não farei comentários. Direi apenas o seguinte: Se me afastasse do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas por uma imposição como a que me foi feita, eu negaria toda a minha longa vida de trabalho, sofrimentos e lutas, em que procurei honestamente cumprir a minha missão de Mãe e de ser útil às outras mulheres.

Portanto, a minha resposta só pode ser esta: Não abandonarei a direcção do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas sob qualquer pressão, a não ser que essa atitude me seja imposta pela força, assim como só tomei posse do cargo que ali desempenho por deliberação consciente da minha vontade. Esta atitude, nas circunstâncias em que tomo, coloca-me numa situação gravíssima sob o ponto de vista material, e expõe-me talvez a grandes perigos. Mas tenho por mim a força moral de uma consciência tranquila e firme na sua razão.

V.Exª. faz-me saber na sua primeira carta que, no caso de uma recusa, devo considerar-me, desde esse momento, desligada da direcção de Modas e Bordados.

Essa decisão fere-me profundamente, por todos os motivos. Aceitarei, porém, com serenidade, mais esta dura provação – a mais dura até hoje – e que não sei como acabará.

Deixo de ser, desde este instante, por determinação de V.Exª., directora do suplemento feminino de O Século, no qual trabalhei mais de dezoito anos com a maior dedicação e seriedade, levando-o a uma prosperidade excepcional no nosso meio.» (4 de Junho de 1947).

Maria Lamas. Pedro Rosa Mendes. Dois rostos. Dois olhares distanciados no tempo, unidos pelo mesmo combate de informar em liberdade e com isenção, num Portugal onde o poder vai tecendo, delicadamente, as malhas da intolerância e censura.


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