SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Junho 2021, 23:24

O Quarto Poder Amordaçado (parte 1)

Nos nossos dias é corrente falar-se de «crise da democracia» e «desmontagem da democracia».

Sistema de governo associado a um mundo livre e justo, os alicerces democráticos que sustentam a nossa sociedade vão sendo, progressivamente, ameaçados pela força opressiva dos centros decisórios do país. Embrutecidos, assistimos à tentativa declarada de imposição de um pensamento único, eliminando o espaço da crítica e debate de ideias, apanágio de uma sociedade livre. Paira sobre nós um clima de asfixia democrática onde a liberdade de expressão e independência vão definhando.

A  actual censura assume uma roupagem ainda mais subtil e perversa que durante o Estado Novo. Excesso de informação, muita dela irrelevante, desprovida de conteúdo, de seriedade e de rigor jornalístico. Veja-se o exemplo do telejornal. Nas suas longas emissões, só a escassos minutos cabe o papel de informar, o resto reparte-se por pseudonotícias, propaganda, entretenimento, publicidade e fait-divers. Assistimos, frequentemente, à substituição dos especialistas abalizados (sobre os vários domínios científicos da realidade social) pelos fazedores de opinião, que se vão acomodando nas montras e cadeiras professorais dos órgãos informativos. São eles que dominam a actualidade nacional, paralisando, – através das suas opiniões que transformam em verdades absolutas, – o sentido crítico do público leitor ou espectador.

Não será isso uma desresponsabilização do Estado enquanto agente promotor da cultura? Não será isso uma posição laxista e permissiva face ao grande número de programas, que dominam a televisão sem qualidade e sem interesse formativo? E que dizer da chantagem patronal e pressões do poder instituído sobre os jornalistas assalariados que, sendo vitimados pela reconhecida precariedade da sua profissão, são obrigados a seguir as suas políticas?

Há algumas semanas atrás registou-se um caso. A vítima foi o jornalista Pedro Rosa Mendes, responsável pelo programa Estes Tempos, que numa das suas últimas crónicas teve a veleidade de criticar o governo angolano. O prémio atribuído à sua peça jornalística redundou na reprimenda e despedimento. Situações como esta vão passar a ser frequentes no nosso país, alargando-se a outros sectores profissionais, com a cumplicidade do actual governo depois de ter armadilhado as leis laborais através desse cínico conceito que dá pelo nome de flexibilização.

O que o jornalista disse na sua crónica não foge à verdade! Qualquer indivíduo minimamente informado sabe que o nosso país irmão está longe de ser uma democracia. É uma ditadura férrea, cleptocrática e inimiga da liberdade. Só por interesses económicos e estratégicos é que um Estado, dito democrático, negoceia com um país que apresenta um largo historial de repressão sangrenta. Para agradar às entidades oficiais da antiga colónia, o governo tentou demarcar-se das palavras críticas emitidas num dos seus órgãos de comunicação, a RDP, suspendendo através da direcção da rádio o contrato com o referido cronista.

Algumas semanas depois, outro caso contra a liberdade de informação é notícia: os jornalistas da TVI foram proibidos de captar imagens nas reuniões europeias. Motivo? Divulgaram a postura subserviente do ministro das finanças de Portugal no diálogo que entabulou com o seu homólogo germânico. Estes episódios colocam uma página negra na vida política nacional e propiciam um clima de medo e discriminação.

O modus operandi do despedimento também era prática recorrente no tempo do fascismo. Os contornos da confrangedora situação de que foi alvo Pedro Rosa Mendes, ao fazer uso do seu exercício de liberdade, tem paralelo com um caso semelhante vivido pela escritora torrejana Maria Lamas, nos anos quarenta do século passado. Nessa altura desempenhava a função de Directora do jornal Modas e Bordados da empresa O Século.

(continua)

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