SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 07:08

Virgínia da Silva: a actriz da voz de ouro (parte 2)

Bastou pouco tempo para figurar como uma das actrizes mais promissoras do teatro no panorama nacional. Para tal, muito contribuiu a inocência e graciosidade do seu porte, e principalmente, a sua voz cristalina e fluida. A mais bem timbrada do teatro português do seu tempo.

No crescimento de Virgínia na difícil arte de representar teve enorme preponderância o actor José Carlos dos Santos, quando assume a direcção do teatro do Príncipe Real, ao ensinar-lhe muitos dos segredos da profissão.

As suas representações no papel de ingénua são verdadeiramente notáveis. Longe iam os anos em que a timidez tolhia-lhe os movimentos. Em pouco tempo destacou-se como uma das grandes executantes do teatro português.

A peça O João Carteiro ensaiada no ano de 1870 foi a primeira em que actuou sob a direcção de José Carlos dos Santos, vulgarmente conhecido por Santos Pitorra. Outros êxitos se sucederam, (Os dois Anjos; Abismo; Os Solteirões; O que fazem Rosas, etc.) arrancando do público enormes ovações e momentos inesquecíveis. Experimenta fugazmente o género opereta (Flor de Chá; Fonte de Suspiros…) em que revelou algumas dificuldades. Não por falta de voz ou de ouvido, mas por receio de desafinar em palco.

Passando o empresário e actor, Santos Pitorra, para o teatro D. Maria II, levou consigo a actriz Virgínia para figurar como a primeira ingénua do teatro nacional, fundado pelo grande escritor Almeida Garrett, preenchendo o vazio que se fazia sentir desde o falecimento da grande actriz Manuela Rey.

O encanto e graça do seu juvenil talento reflecte-se nas ingénuas por si encarnadas: a  noiva da Gravata Branca; a Mimi da Vie de Bohéme; a filha do duque d’ Alba da Pátria, entre muitas outras.

Mantém-se durante vinte sete anos na primeira sala de teatro do país, o que para a época era algo inusitado. Disso nos dá conta um pequeno excerto do artigo publicado na Ilustração Portuguesa, de Abril de 1906: «É a actriz portuguesa que mais tempo tem demorado num teatro. Esta permanência constitui por si só, a afirmação irrecusável de qualidades de disciplina e de primores de carácter pouco vulgares (…) Espírito fidalgo de mulher, a ilustre actriz foi sempre superior à mesquinhez das invejas e das vaidades.»

Artista de excepcional grandeza e isenção, nunca procurou sobressair no seu papel de fidedigna intérprete da obra e autor. Os triunfos e sucessos são subalternizados face à sua autêntica paixão pelo teatro. Só a ele evoca a sua devoção e apreço.

No D. Maria II começou a representar papéis de grandes-damas salientando – se nas peças: Princesa de Bagdad; Dionisa; Othello; A Estrangeira e Fédora. Nesta última representação teve a sua mais alta consagração no grande género, colocando-se como a primeira actriz no plano nacional. Atreveríamos a chamá-la, a Sara Bernhardt do teatro português, dada a intensidade e força dramática colocada no último acto da referida peça. O caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro, na folha humorística Antonio Maria, de 13 de Dezembro de 1883, tece-lhe rasgados elogios. Escutemos as suas idóneas palavras: «O talento da actriz Virgínia-e deixem que o distingamos, por isso mesmo que não chamamos distincto; – o talento da actriz Virgínia, dizíamos, achou na protagonista da formosa peça de Sardou um ensejo de manifestação brilhante, e vivida, e opulenta, que nos estontearia de surpresa se há muito não adivinháramos os recursos prodigiosos da singular artista. (…) Proceder aos detalhes de tão magistral desempenho, seria impossível n’este curto espaço de papel.»

Mas, apesar do retumbante sucesso, não é esta a peça que a actriz torrejana elege como a sua preferida. A Denise de Dumas foi a que lhe deixou mais saudades. Dela a actriz guarda a recordação de chorar lágrimas verdadeiras com o actor João da Rosa, no primeiro ensaio em que lhe descrevia a morte dum filhinho. A intensidade emocional desencadeada levou a que não o concluíssem.

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