SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 15:52

Virgínia da Silva: a actriz da voz de ouro (parte 1)

Imersos na vertigem da espuma dos dias, vamos perdendo a nossa capacidade de reparar em alguns pormenores inscritos pela cidade que nos falam de memórias e tempos passados.

Situada na rua Alexandre Herculano, ergue-se uma singela casa com uma lápide na frontaria da parede do edifício que escapa aos olhares de um transeunte menos atento. Ao aproximarmos os nossos olhos das esmaecidas letras constatamos que no primeiro andar daquela humilde residência ecoou, na longínqua data de 19 de Março de 1850, os primeiros acordes vocais da grande actriz torrejana, Virgínia Dias da Silva.

O registo do local e dia do nascimento da grande dama do teatro foi sujeito a pequenas incorrecções nalguns artigos e publicações biográficas de referência. No Dicionário do Theatro Portuguez, de Sousa Bastos, impresso em 1908, (pág.207), a cidade de Lisboa é citada como o seu berço. Já Artur Gonçalves, por lapso, refere o seu dia de nascimento em duas datas distintas: a 29 de Março, no livro Ilustres Torrejanos, (pág.459); e a 20 de Abril, nos Anais Torrejanos, (pág. 93), obra editada após a morte do autor.

Julgamos que o primeiro erro teve a sua origem no artigo, da homenagem póstuma à actriz, publicado no jornal O Almonda em 1 de Janeiro de 1923. Ao fazer-se a transcrição para a obra Ilustres Torrejanos o engano continuou a persistir.

O segundo equívoco, resultou de uma confusão de datas (não acreditamos que esta falha seja da lavra da pena do mestre!) proveniente de uma leitura rápida e descuidada do assento de baptismo da gloriosa actriz Virgínia que se encontra nas primeiras publicações. A data mencionada nos “Anais…” evoca o dia dessa celebração.

Em Lisboa, ainda muito nova e, na companhia do seu padrinho, Rafael Oliveira, accionista do vetusto teatro da rua dos Condes, assiste às récitas e ensaios gerais naquele velho barracão de espectáculos. O gosto e o entusiasmo pela arte de representação florescem na sua alma ingénua e fantasista. Quando chega a casa tenta recriar sozinha tudo o que viu: canta, dança, pronuncia frases emprestadas das personagens, cenas, gestos e movimentos.

Será pela mão do seu padrinho que o destino resgatá-la-á para o mundo dos palcos, contrariando a escolha de sua tia. A modesta senhora queria fazer de Virgínia uma costureira. É através das palavras da actriz, numa pequena entrevista concedida ao número specimen gratis da ABC Revista Portuguesa de 1920 (teve a honra de ser a primeira figura entrevistada pelo periódico na secção referente ao teatro e cinematógrafo!! ), que relatamos este pormenor da sua vida: «Vivia em casa de minha tia que era pobre e como eu tivesse quinze anos deliberara empregar-me num atelier. Ia ser costureira, quando era o palco, todo o mundo que adivinhava, o futuro que cobiçava… Supliquei, pedi e estreei-me no Príncipe Real…»

O ilustre investigador torrejano, Faustino Bretes, na sua biografia sobre a Actriz Virgínia, (pág. 53), coloca, por lapso, nestes desabafos biográficos, a data de 1921. Ao contrário do que afirma, Virgínia da Silva ainda viveria mais dois anos. No mês de Abril de 1922, a poucos meses de se retirar do grande palco da vida, concede a sua última entrevista para as folhas da Ilustração Portuguesa.

Descoberta a sua vocação e com a ajuda do padrinho, Virgínia entrou para o teatro Príncipe Real, do empresário César de Lima, com um contrato em que aufere mensalmente a quantia de 12.000 réis. A sua estreia dá-se a 15 de Abril de 1866, na comédia em dois actos Mocidade e Honra. Revela desde logo a sua enorme vocação a par de uma voz e sorriso que encantavam as plateias. Mas nem tudo correu bem na sua primeira aparição em palco: no segundo acto da peça era obrigada a segurar um ramo de flores, mas por causa da sua timidez e inexperiência, trazia o ramalhete, imóvel e muito espetado, a tal ponto que nos bastidores uma colega de trabalho, Ana Pereira,  advertiu-a para que tivesse uma postura mais natural.

Iniciou com esta representação o papel de ingénua em que se destacaria por mero acaso no referido teatro, após o abandono da actriz Margarida Pereira.

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