SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 16:36

Um Ilustre Torrejano na batalha de Alcácer-Quibir (parte 1)

Há acontecimentos da nossa história que definem, ciclicamente, quem somos. Lugares em que se tece a nossa memória colectiva e onde mergulhamos a alma universal do nosso povo na esperança de reencontrar a glória perdida. A batalha de Alcácer-Quibir, ocorrida no dia 4 de Agosto de 1578, em Marrocos, é um desses episódios. Foi lá onde pereceram muitos dos grandes nobres de Portugal e se criou a lenda que melhor traduz a utopia de uma esperança continuamente procurada por um povo.

Palco messiânico do surgimento de um mito, à volta de um rei, o Sebastianismo. Fantasmagoria que assombrará pelos confins dos tempos as estruturas do nosso imaginário colectivo.

O seu significado revela o inconformismo de um povo face ao empobrecimento e perda de autonomia da sua pátria, acalentando a expectativa de que um dia a sua  “ Hora”, a ressurreição de um passado heróico e glorioso, voltará. Grandes nomes da literatura portuguesa, Padre António Vieira e Fernando Pessoa, elevaram este acontecimento a um desígnio nacional e espiritual. Ponto de partida para a regeneração da alma mater de um povo em busca de um patriotismo perdido.

Nada estranho aos tempos vividos na actual sociedade portuguesa. Há um certo paralelismo entre esse momento passado e o que hoje assistimos no solo luso. É cada vez maior a nossa dependência face a países e a forças externas que controlam a nossa vivência impondo regras que evidenciam a subserviência e perda de identidade de uma nação. Se hoje a nossa dignidade não sucumbiu no campo da batalha, a sua queda é fruto da “fraca gente” que nos governa.

Esperamos uma saída para o fosso em que nos lançaram. O ancestral mito do Sebastianismo volta a estar presente no nosso imaginário. Um dia a nação erguer-se-á novamente libertando-se dos grilhões que aprisionam mais de oitocentos anos de gloriosa história.

Para a ascensão do passado, muito contribuíram vários ilustres torrejanos ao acompanharem o seu rei nesta fatídica batalha. Alguns deles perderam a sua vida, casos de Francisco Fonseca, Gonçalo Pimenta do Avelar, Lucas Carrolas e o donatário da vila, o segundo marquês de Torres Novas e Duque de Aveiro, D. Jorge de Lencastre. Os que regressaram à pátria guardaram nas suas vivências a memória do morticínio presenciado.

É de um deles que gostaríamos de falar neste artigo, com o objectivo de religar pormenores da sua vida, perdidos na voragem do tempo. Trata-se do fidalgo da casa real, João Galvão. O nosso propósito cinge-se ao preenchimento de pequenos detalhes – nem sequer podemos chamá-los de pinceladas -, na imensa tela onde desfilam os grandes vultos da história de Torres Novas, que dá pelo nome “Ilustres Torrejanos”, da autoria de Artur Gonçalves. A tentativa da reconstrução da vida deste torrejano, que partilhou com muitos dos seus conterrâneos o desastre de Alcácer-Quibir, tem como base o seu testamento manuscrito, feito no remoto ano de 1614. Quase a atingir quatro séculos, este documento vivo projecta alguma luz sobre as marcas deixadas pela trágica batalha. Um texto profundamente humano, que nos coloca frente a frente com o que somos.  (continua)

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