SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 07:51

Presidentes da República retratados por Carlos Reis

Carlos Reis (1863-1940) não é apenas conhecido na História das Belas Artes como um grande paisagista ou pintor de costumes. A sua grandeza de artista estendeu-se também na área do retrato, onde atingiu uma prestigiada reputação. Por si só o belíssimo quadro, “D. Carlos I e o seu Estado-maior” (1904), bastaria para o colocar entre os maiores retratistas do seu tempo. Nota-se em muitos dos seus retratos a preocupação de apresentar de forma realista a personagem que serviu de modelo. Carlos Reis preocupava-se fundamentalmente em pintar o que os seus olhos viam. Os aspectos psicológicos do retratado eram, para ele, secundários. Por esse motivo os quadros de torrejano ilustre retratam fidedignamente o rosto dos seus modelos. O que neles se revela é a exteriorização estética das suas almas. Plenas de energia e de intensidade real. Na vasta galeria de personagens pintadas pelo torrejano ilustre encontram-se muitos dos seus amigos, figuras importantes da nobreza e rostos de pessoas comuns que foram dignas da atenção da sua notável paleta de cores. Há também alguns presidentes da República que procuraram na superior técnica estilizada do Mestre torrejano a fixação da sua imagem para a posteridade histórica. Quem visitar o Museu da Presidência da República, em Lisboa, pode observar na sala da “Galeria dos Retratos Oficiais dos Presidentes da República” um quadro de Carlos Reis. A tela, executada a óleo pelo torrejano ilustre, retrata o Presidente Manuel de Oliveira Gomes da Costa (1863-1929), com as vestes militares de herói da guerra colonial. Este quadro tem a particularidade de ter sido realizado ainda no tempo da monarquia, em 1899.
Ao fazermos a análise da pintura, constatamos que Carlos Reis apresenta fielmente o rosto de um homem onde transparece a coragem, a segurança e a nobreza de carácter. Qualidades que foram postas em evidência no brilhante percurso militar de Gomes da Costa. Basta apenas recordar a sua acção na Grande Guerra (1914-1918) ou o papel de líder no golpe de Estado de 28 de Maio de 1926. Chamemos a atenção do leitor para o pormenor minu- cioso das vestes de Gomes da Costa. Principalmente a sua farda, onde é possível constatar o domínio técnico da tonalidade branca por parte de Carlos Reis. Outra característica importante do quadro tem a ver com a subtileza dos contrastes. Inculcando no retrato uma enorme densidade psicológica. O perfeccionismo estético colocado na tela possibilita afirmar que estamos perante uma autêntica obra-prima do Mestre torrejano. Em 1905, o Presidente Émile Loubet (1838-1929) visita pela segunda vez Portugal. A fim de recordar a sua honosa presença, Carlos Reis executa o retrato do chefe de Estado francês para figurar no álbum de homenagem. Também neste quadro o pintor torrejano conseguiria uma representação bastante expressiva do ilustre modelo. O rosto do Presidente Émile Loubet emana firmeza e decisão. Características adstritas a um grande líder político. A predominância dos tons escuros na tela cria um ambiente de enorme densidade em torno do ilustre político francês.
Ao longo da sua vida, Carlos Reis visitou por diversas vezes o solo brasileiro. Numa viagem a terras de Santa Cruz executou o retrato a óleo do Presidente do Brasil, Dr. Epitácio Pessoa (1865-1942). Este quadro, realizado em 1919, teve uma enorme repercussão na imprensa da altura. Levando a crítica a desdobrar-se em rasgados elogios nas páginas dos jornais. Em finais de Agosto de 1920, e interpretando os desejos da numerosa colónia portuguesa no Rio de Janeiro, o quadro foi oferecido ao distinto chefe de Estado brasileiro, Epitácio Pessoa (mais um bronze do escultor brasileiro Correia Lima). A comunidade portuguesa pre- tendia, com o singular gesto, prestar a justa homena- gem “aos dotes excepcionais e às extraordinárias faculdades do primeiro magistrado da nação irmã” (“Ilustração Portuguesa”, 2º série, nº 772, 4 de Dezembro de 1920, pág. 359). O quadro, de grandes proporções, apresenta o chefe de Estado brasileiro, no seu gabinete. Numa pose informal. Do fundo minucioso da tela, destaca-se a figura do ilustre retratado. Exposto à análise do observador.
Este retrato de Carlos Reis foi considerado pela exigente crítica como “um dos seus melhores trabalhos e uma verdadeira e preciosa obra de arte” (op. cit., pág. 360). Quando abordamos a faceta de Carlos Reis como retratista é incontornável referir estes três paradigmáticos quadros. Às razões de índole histórica junta-se o facto de estarmos perante algumas das melhores obras da extensa produção artística do Mestre torrejano. Texto escrito com a antiga ortografia.

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