SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 12:16

Um Poema Inédito de António Botto

A dezassete de Agosto de 2017, faz 120 anos que nasceu António Botto (1897-1959). Figura incontornável de Abrantes (é o patrono da sua Biblioteca Municipal), o escritor, natural de Concavada, destacou-se, fundamentalmente, como um grande poeta e admirável contista infantil. Nesta última faceta revelar-se-ia um autor impregnado de uma rara sensibilidade. Só ao alcance de um exíguo número de predestinados.

A cidade de Abrantes não esqueceu o seu maior vulto literário. Ao longo do corrente ano (eventos que desenrolar-se-ão até ao seu termo) foram-lhe dedicadas várias palestras e actividades, com o objectivo de lembrar- principalmente às gerações mais jovens – a marca indelével de António Botto na História da Literatura Portuguesa.

Esperemos também que, no próximo ano, as instituições culturais torrejanas dignifiquem, com a mesma grandeza das suas congéneres abrantinas, a memória do historiador torrejano Artur Gonçalves (1868-1938). Nos 150 anos do seu nascimento.

A extraordinária capacidade de António Botto entrar no universo intimista dos sonhos e pensamentos das crianças projectou-o como um grande contista infantil a nível internacional. Um dos seus mais importantes livros infantis, a belíssima obra “ O Livro das Crianças” (leia-se a desarmante introdução) abre, numa das primeiras páginas, com estas significativas palavras: “ Aprovado oficialmente nas escolas da Irlanda e com a aprovação em Portugal de Sua Eminência o Cardeal Patriarca de Lisboa D. Manuel Gonçalves Cerejeira”. O jornal “O Século” afirmaria que: “ Nunca na língua portuguesa se escreveram até hoje contos mais lindos e mais puros do que os que formam «O Livro das Crianças». (…) Páginas de amor, de ensinamento e de justiça, (…) uma verdadeira obra-prima infantil”.

É de lamentar que as escolhas de obras, para a patética e caricatural listagem do “Plano Nacional de Leitura”, se tenha cingido, apenas, a um seu pequeno livro,“ Histórias do Arco da Velha” (apesar de incluir alguns contos da clássica obra “O livro das Crianças),para o quarto ano de escolaridade. Uma gota de nada do seu incandescente mar de prosa infantil, pleno de “adoráveis manchas de beleza formal, maravilhosos no conceito, autênticas obras-primas” (Fernando Pessoa). O que retira aos pequenos leitores da escola portuguesa a possibilidade de escutarem e beberem os ensinamentos e as interpelações de uma alma gémea.

A par dos seus contos infantis, também não é de menosprezar a obra poética de António Botto. Fernando Pessoa (a quem A. Botto dedicou, à sua memória, a pungente jóia confessional “Poema de Cinza”) disse que “nos seus versos, há o infinito da alma”. Segundo Pessoa, “a elegância espontânea do seu pensamento, a dolência latente de sua emoção, asseguram-lhe, facilmente, conjugando-se, a mestria do [seu] lirismo”.

António Botto é, hoje em dia, um poeta bastante ignorado e que vale a pena redescobrir.

A fim de juntarmo-nos às comemorações, em torno de António Botto, deixemos, aqui, à apreciação dos leitores, um seu poema inédito:

Canção Magoada

Ó rio que vais correndo

Alegremente a cantar

Um dia longe de tudo,

De saudade hás-de chorar!

Ó rio que vais correndo

Não corras, vai devagar.

Ó rio que vais cantando

Por entre o junco a saltar;

Quem me dera ir contigo

Perder-me no imenso mar!

Ó rio que vais cantando,

Não corras, vai devagar.

Ó rio, que vais fugindo,

Sempre, sempre a caminhar.

Não digas nunca a causa do meu penar!

Ó rio que vais fugindo,

Não corras, vai devagar!

António Botto

Inédito

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