SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 12:14

Cartas da Prisão (2)

São também frequentes, nas cartas de Francisco Canais Rocha, referências às visitas que eram feitas por familiares e amigos. A sua mulher e o irmão, Joaquim Canais Rocha, foram os dois grandes baluartes que o ajudaram a suportar as duras provas que experienciou na Fortaleza de Peniche.

Espírito aberto à cultura e ao saber, Francisco Canais Rocha recorria principalmente ao seu irmão para o empréstimo de livros e na orientação sobre novidades literárias. Ou, também, para inteirar-se sobre as actividades desenvolvidas pelos grupos culturais torrejanos.

Passagens a propósito do Cine-clube e de cinema aparecem em diversas missivas. Numa delas, Francisco Canais Rocha questiona o irmão sobre o êxito da arrojada programação de filmes de terror, ao sábado, no Cineteatro Virgínia (20/03/1972). Em outra, pede a Joaquim Canais Rocha que lhe envie programas das sessões do Cine-clube (22/10/70).

Na leitura da carta escrita a dezoito de Maio, ficamos a saber “dos atritos que surgiram por causa do Cine-clube”. Manifestando Francisco Canais a satisfação pelo facto de terem sido superados (18/05/1972). Na mesma missiva congratula-se com a participação do Coral Phydelius no festival de Coimbra.

É no período de cativeiro, em Peniche, que Francisco Canais Rocha aborda a questão das condições de acesso à Universidade, para os alunos extraordinários. Deixando em aberto a hipótese de [concorrer] ser “uma perspectiva mesmo que limitada” (17/08/1972).

Anos mais tarde, em pleno regime democrático concluiria, em 1981, a sua licenciatura em História, na Faculdade de Letras de Lisboa. Seguindo-se, em 1990, o mestrado em História Contemporânea, com a tese sobre “Perfeito de Carvalho- Um Sindicalista da 1ª República” (1908-1922) ”.

Além da actividade cultural torrejana, Francisco Canais Rocha gostava de receber informações sobre as pessoas da vila suas conhecidas. Como salienta ao seu irmão: “ Cá recebi a tua carta com as notícias mais recentes do burgo. E a que me causou mais impressão foi essa do filho do Tavares. Deve ser coisa grave, dado o seu internamento urgente em Lisboa. Desejo que ele vença a doença e que melhore o mais rapidamente possível (20/03/1972).

À medida que Francisco Canais Rocha caminhava para o período final da sua pena, um desgosto enorme acometeu-o de surpresa: a morte de sua mãe. A clandestinidade e a prisão tinham-no separado da sua progenitora, há quase doze anos. Acalentava a esperança de um dia voltar a vê-la. Mas o fatídico dia roubar-lhe-ia implacavelmente a felicidade do reencontro. Apesar de endividar todos os esforços para ultrapassar os inamovíveis obstáculos:

“ Peniche, 25/09/ [19] 72

Querido irmão

Cá recebi as tuas cartas com as notícias do estado da mãe. E embora tu digas – e com razão- que isto acabasse por se verificar mais tarde ou mais cedo, dada a sua avançada idade, a verdade é que sabendo tudo isso, acabamos por ficar chocados e tristes. É que apesar de tudo, alimentei sempre a esperança de que ela resistisse até eu sair em liberdade. Ainda agora, quando cá esteve a São, o marido, o filho e a nora, lhes perguntei isso mesmo, e a resposta deles reforçou a minha esperança. Afinal, dias depois, dava-se o que tanto receávamos. E, ironia da vida, isto verifica-se quando pouco falta para o aniversário da morte do pai e, tal como dessa vez, eu estou preso e longe de vocês. Parece que mais uma vez a história se repete. Mas enquanto no que se refere ao pai eu tinha-o visto um mês antes da sua morte, a mãe já não a vejo há quase 12 anos, como sabes. E este é outro e bem forte motivo para sentir duramente a situação.

Por tudo isto, e ainda antes de receber a visita da Bia, das meninas e da minha sogra no sábado, mas conhecendo já as notícias tive uma entrevista com a Direcção da Cadeia, no sentido de ser autorizado ir aí ver a mãe, enquanto ela não perder completamente a lucidez e me possa reconhecer. E hoje dirigi-me por escrito à Direcção geral dos Serviços Prisionais no mesmo sentido. Tudo farei pois, para que a mãe me veja ainda uma vez quaisquer que sejam as despesas a pagar e os pedidos a fazer.”

Por breves instantes, todos os seus anos de heróica resistência política vacilavam face a este rude golpe.

A resposta das instâncias superiores do Estado Novo chegaria tarde. A hedionda face do fascismo revelava-se mais uma vez ao impedir o derradeiro encontro de uma mãe com o seu filho. Há muito ausente por lutar contra a ditadura. Pôde apenas comparecer ao funeral, numa visita fugaz, escoltado por quatro agentes da PIDE.

A mágoa provocada pela cruel situação é revelada nas linhas da carta seguinte:

“ Peniche, 2/10/ [19] 72

Querido irmão

As minhas primeiras palavras são para desejar que, após a situação que nos atingiu a todos, te encontres restabelecido do abalo provocado pela morte da mãe.

(…) Custa-me profundamente que ela não me tivesse visto ainda uma vez, mas, como sabes, a responsabilidade do facto não é minha, pois tudo fiz para o conseguir (…).”

Durante mais alguns meses Francisco Canais Rocha teria de suportar as agruras da vida na cadeia de Peniche: uma medida governamental poria fim à obrigatoriedade dos presos cumprirem, depois da pena, os três anos das medidas de segurança. Também a sua esposa conseguiria juntar – muito a custo – os sete mil e duzentos escudos para o pagamento da multa que o isentaria de estar mais um ano na prisão.

Em 1973, após a ultrapassagem de alguns impeditivos burocráticos, Francisco Canais Rocha era finalmente libertado. Para trás ficavam mais de sete anos “vividos” nas prisões da ditadura (e muitos outros na clandestinidade). O que o enfileira no pequeno grupo de torrejanos que mais tempo estiveram nas desumanas cadeias do regime fascista. Passagem que acarretou enormes sacrifícios pessoais e familiares, colocando-o desta forma acima de quaisquer críticas ou reparos.

Numa vida dedicada aos verdadeiros valores de Abril.

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